quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

FIM DE ANO: Uma mensagem escrita com as mãos sujas de tinta

Por: Raial Orotu Puri

Autor: Anouk Lacasse
Tenho passado esses últimos dias de 2016 pondo para frente um projeto que esteve parado por um tempo em minha casa, e que comecei devido a algumas situações de crises que vivi nas últimas semanas. Eu andara recolhendo duas peças descartadas para aproveitar em minha casa; dois ‘carretéis’ de fio, para transformar em mesas. Mas, dadas as correrias constantes da vida, o tempo foi passando e meus pretensos projetos de movelaria foram ficando sem que eu fizesse quaisquer das intervenções pretendidas.

Chegou, no entanto, um período em que senti que esse projeto era inadiável e então comecei a fazer a intervenção pretendida. Isto se deu em um momento em que precisei me afastar um pouco do meio virtual, e principalmente da escrita. Isto é algo um tanto peculiar, cabe comentar: por uma série de coisas, desde há muito tempo, eu me acostumei a me expressar melhor e mais livremente através do texto escrito, me sendo muito penoso o exercício do falar, sobretudo em público. Não sou, e não creio que um dia chegue a ser dotada da “ambidestria” de pessoas como meu amigo Jairo Lima, capaz de conduzir bem a melodia das palavras em ambos os ambientes... E assim, eu sou a que escreve.

E sendo a que “escreve”, isto me foi muito demandado ao correr desse ano. Em uma série de ocasiões, assumi o papel de relatoria em eventos de organizações associativas indígenas, fazendo a relatoria das mesmas, ou, nas palavras poéticas, generosas e sempre superlativas do meu querido amigo o ‘Deputado’ Maná Kaxinawa, sendo “a memória dos Huni Kui, guardando aquilo que será lembrados de geração em geração, e nunca acaba”. E foi também a partir da quadra final de 2016, como resultado de muita conversa escrita, e de outros tantos compartilhamentos que fui alçada do papel de expectadora – sem jamais deixar de ser fã! – ao de comparte deste tão belo puxadinho... Presente recebido com muito susto, a ciência do peso de responsabilidade, imensa honra, e uma grande alegria, pois não tenho dúvidas em dizer que a participação no Blog Crônicas Indigenistas, bem como o transporte destes textos também para a Revista Xapuri, certamente trouxeram um hiato de beleza que ajudou a dissipar a bruma e permitir a caminhada pelos dias desse ano.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

MENSAGEM DE FIM DE ANO: Encostando o barco no barranco...

Foto: Acervo Biraci Junior
Por: Jairo Lima

Tivemos um pequeno terremoto no amanhecer deste domingo. Não posso afirmar que este fenômeno não deixa de ter certa ironia poética, que representa bem o que foi este ano, cujo roteiro em nada perderia para as peripécias do reino caótico e disfuncional de Macbeth.
Mas também foi o ano em que iniciamos esta jornada pelos barrancos do Acre e por reflexões de vida, tendo sempre como pano de fundo a cultura indígena e o trabalho em indigenismo que anima a mim e a todos que contribuíram com seus pensamentos transmutados em textos.

Conheci pessoas novas, sem conhecê-las pessoalmente, mas que, graças a esta incrível ferramenta de comunicação chamada internet, meus textos as tocaram de alguma maneira, aproximando-as e tornando-as parte do meu cotidiano, como vizinhos que ao final da tarde sentam-se para prosear.

Para minha surpresa, meus textos foram recebidos com interesse por muitos e, graças a isso, pude conhecer e ser reconhecido por parceiros muito legais, que ampliaram minha “voz”. Entre estes parceiros não poderia deixar de citar a Revista Xapuri, na pessoa da Maria José Weiss. Lindo. Fiquei boquiaberto ao descobrir que as visualizações dos meus textos, nesta revista, ultrapassavam a cifra de quatorze mil com frequência.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

SONS INAUDÍVEIS PARA SERES INVISÍVEIS (ou vice-versa)

Por: Domingos Bueno

“..a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; (...) E disse Deus: Haja luz; e houve luz.”. Gênesis 1:2,3

Dizer significa expressar-se através de palavras: soar... e por  vezes ressoar. Por que o comando divino do Genesis não foi simplesmente um pensamento, ou antes, um desejo? Tipo: - e Deus pensou/desejou: Haja luz... Por que a divindade criadora do universo precisaria usar de palavras antes delas existirem? Alguns teólogos dizem que Ele não disse propriamente, pois a palavra divina difere da humana (embora exista aquela outra afirmação da imagem e semelhança...), enfim...

Na cosmologia hindu, a criação do universo acontece quando Brahma expira, expandindo a criação, sendo a palavra/mantra OM o próprio corpo sonoro do Absoluto.
De novo: a expiração se refere ao ar? (dos pulmões?) Bem, ai existe uma questão de ordem física, pois até onde se conhece do universo, apenas o planeta terra possui atmosfera adequada a vida tal qual a conhecemos. Também não existe ar no espaço/vácuo, o que nos levaria à necessidade de explicitação de ideias e conceitos, que apenas recentemente (no tempo expandido) foram descobertas e admitidas, por populações majoritariamente ágrafas e desprovidas dos rudimentos da biologia humana ou da física na chamada ciência ocidental.

Argumenta-se que tais narrativas seriam tentativas de dar sentido ao cosmo e a vida utilizando os recursos cognitivos disponíveis no(s) momento(s) em que foram compostas, anunciadas ou/e recompostas. Será?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

LÍNGUA INDÍGENA: Mais que um significado de mundo...

Tuwe Huni Kui - Foto: Acervo Tuwe
Por: Jairo Lima

Encerrou-se na semana passada o “Curso de Hãtxa Kuin”, protagonizado pelo Prof. Dr. Joaquim Maná Kaxinawá e realizado na aldeia Água Viva, Terra Indígena Praia do Carapanã.

Sempre faço uma troça inocente sobre esta terra, informando aos interessados em conhecê-la ou que se encontram em trânsito para a mesma que, a despeito do maravilhoso Povo que lá habita, e pela beleza exuberante da natureza que a circunda, Deus decidiu que este seria o lugar onde morariam os mais nervosos e insaciáveis piuns e carapanãs da Amazônia.

Este curso foi especial, e arrisco dizer que foi um marco no processo de fortalecimento do hãtxa kui (língua tradicional do Povo Huni Kui), pois desta vez, vemos a iniciativa e sua execução totalmente sob a égide dos detentores desta língua. Dispenso aqui umas linhas para dizer que a afirmação acima não procura visões simplistas ou panegíricas superficiais só porque a atividade foi realizada por professores indígenas. Nada disso. Temos um doutor em linguística a frente do processo, ou melhor, temos um doutor Huni Kui que além de falante (e pensante) do hãtxa kui também possui todas as ferramentas necessárias para o ambicioso projeto que o move: fortalecimento e expansão da língua materna.

O mais recente texto da Raial, “Resposta a Samman Potéh”, além de ser de uma profundidade singular, em seus parágrafos finais lembraram-me pensamentos que há muito circulam em minha mente e que me atiçaram a estudos e observações ao longo destes muitos anos, de subidas e descidas de barrancos. Trata-se da língua indígena.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

MENSAGEM DE REALISTA ESPERANÇA*

Super Lua - Foto: Tashka Yawanawá
Por: Dedê Maia

Esse foi um ano para não esquecer!

Uma mensagem “Sobre a Esperança” - Mensagem para encerrar 2016 e esperar um “Ano Novo”.

Não se trata de uma mensagem qualquer. Tipo dessas que já vêm prontas e empacotadas para os finais de todos os anos.

Também não se trata de mais uma mensagem de análise do panorama político, ou críticas. E olha que temos muitas razões para isso! Ou ainda mensagem cheia de lamúrias das perdas desse tempo! E se der trela como tem “ais” em 2016! Esse foi um ano para não esquecer “com tudo que é de seu.” E nesse “tudo que é de seu”, eu pessoalmente venho também de encontros e reencontros prazerosos e encantadores; Que cantam para levantar o céu; Que reverenciam a vida; Que “rexistem” com dignidade, sabedoria e ações inteligentes, aos cruéis desatinos do mundo nawá. Realmente esse é um ano para não esquecer!

Resolvi, não apenas responder a mensagem ao autor, mas compartilhá-la.
Essa mensagem foi mais uma das “sincronicidências” que o movimento mais recente da minha vida tem me reservado. E sigo o fluxo, às vezes prazeroso, às vezes perigoso. Carece de atenção.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

RESPOSTA À SAMMAN POTÉH

Fonte: site Agenda Digital
Por: Raial Orotu Puri
Samman potéh,

Esta é talvez a primeira resposta pública que faço a você, sobre assuntos que já debatemos antes em particular. Faço-o por ter sido instigada a isso, através de uma crônica-carta que conversou comigo, em linhas, imagens e impressões, e que espelha um diálogo que não vem de hoje. Não creio que te traga nada de tão novo, seja sobre o que posso dizer da minha participação na Assembleia da OPIRJ, seja sobre aquele evento de triste memória. Contudo, responderei.

Para responder, há que se falar, uma vez mais, da despropositada "conferência internacional de celebração da falta de respeito da white people que acha que tem legitimidade para adentrar em um mundo onde não é bem-vinda" (e não são bem-vindos exatamente por sua absoluta falta de respeito com uma sacralidade que são incapazes de compreender.). Às vezes, é preciso lembrar de coisas ruins. Até mesmo para ser capaz de se afastar delas, para produzir algo que seja eminentemente diferente, e eis o desafio que está colocado neste momento.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

AYAHUASCA: Planejando a Conferência Indígena 2017

Por: Jairo Lima
“Teve um tempo em que o índio para ser um cidadão brasileiro tinha que usar roupas, ser batizado, parar de falar a língua indígena, falar a língua do branco. Tudo isso para ser considerado gente.
Será que não estamos violando os direitos sob a justificativa de estarmos protegendo algo? Afinal, pode ser que reconhecer a ayahuasca contradiga a essência da coisa”.

Este é um excerto dos registros da fala de Francisco Piyanko Ashaninka, durante uma reunião em que estávamos discutindo, juntamente com o IPHAN e a presidência da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), as bases para a realização, em 2017, de uma série de encontros regionais e, ao final de uma grande conferência estadual para discutir um assunto que vem gerando diferentes posições e pequenos conflitos: a patrimonialização da ayahuasca.

Como!?

Pois é, o assunto não morreu como eu já havia alertado em textos anteriores, para desalento de um querido amigo que, em nossos encontros pós-conferência, insiste em demover-me de uma visão e posicionamento que, segundo ele, é equivocada. Esforço louvável, mas inútil ante a convicção que me move e que ficou clara nas falas proferidas pelas lideranças durante as assembleias regionais que vem ocorrendo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ALDEIA VERTICAL: Sobre encontros, pedras preciosas, estrelas e os Puri

Quadro de Teresa Lima
Por: Raial Orotu Puri

Uma das histórias antigas de meu povo, os Puri, conta sobre o surgimento dos diamantes, que são, assim como os próprios Puri, concebidos como um produto das estrelas, alkeh potéh, poeira das estrelas. Esta narrativa conta que, há muito tempo, quando os raion tentavam tomar os territórios ancestrais, estas investidas eram bravamente repelidas pelos guerreiros Puri, que impediam assim o avanço da conquista. Este grupo em particular vivia à sombra de uma Acaiaca, cedro rosa, a qual era considerada sagrada pelo fato de ter sido a árvore que deu salvação a um casal que subiu em seus galhos a fim de escapar de uma grande enchente que matou todos os viventes. Depois que as águas baixaram, o casal desceu para a terra e a repovoou.

Cientes da importância dada àquela árvore, e de que não seriam capazes de vencer aquela guerra por meios lícitos, os raion aguardaram o momento certo para atacar aquilo que sabiam, seria capaz de levar os Puri à derrota: Num momento em que todos se ausentaram da aldeia para participar de uma festa, cortaram a Acaiaca. O céu se abriu em choro tempestuoso, lamentando aquela profanação. Somente ao raiar da manhã seguinte, quando acordaram de um sono entorpecido de canjirina (bebida fermentada feita à base de milho), os guerreiros se deram conta do fato terrível, e sentindo-se agora completamente vulneráveis, foram facilmente vencidos pelo inimigo. Quando ainda celebravam seu triunfo entre os corpos assassinados, o espírito do pajé Puri apareceu-lhes dizendo que por pura cobiça eles haviam destruído aquele povo, e que isso seria também a sua própria ruína. Nesse momento, a Acaiaca explodiu, e seus estilhados espalharam-se sobre o campo. Porém, logo os raion notaram que o que tinham a seus pés não eram lascas de madeira, e sim diamantes. Tomados de loucura ante aquela inesperada fortuna, os raion passaram a lutar entre si para ficar com o tesouro, e assim, até ao fim daquele dia, não restava sequer um único vivente. E a batalha, portanto, acabou sem nenhum lado vitorioso.

domingo, 27 de novembro de 2016

AVISO

Nesta semana não teremos postagens de Jairo Lima, poiso mesmo se encontra em atividade na Terra Indígena Puyanawa

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

AS ÁGUAS E O CÉU DE DIAMANTES DO HENÊ BARIÁ

Presente Divino Maraguá - Uziel Gaynê Maraguá
Por: Raial Orotu Puri

Acabo de retornar de uma viagem à Terra Huni Kuĩ Henê Bariá Namakia, para participar da 23ª Assembleia Ordinária da Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira – OPIRE, e este texto trará algumas impressões que me foram proporcionadas por esta experiência. Esta não é a minha primeira ida a uma Terra Indígena no Acre, tampouco o é a esta Terra específica, razão pela qual não chego a ser uma “marinheira de primeira viagem”. No entanto, por diversas razões, digo de antemão que se tratou de uma experiência singular.

A primeira singularidade foi que, devido à demora no deslocamento entre Rio Branco e o município de Feijó, derivado em grande parte pelas péssimas condições da BR 364 – sempre ela! – chegamos muito tarde à cidade, e acabamos perdendo a carona que havíamos tratado com o pessoal da Funai. Assim, foi necessário encontrar outra carona. Na ‘beira’, indicaram-me que o Cacique Jerônimo Barbosa estaria de partida assim que conseguisse arrumar o motor de seu barco e consegui com ele a confirmação da carona, e assim acabamos partindo imediatamente, para desespero de meus colegas, que estavam ansiosos pelo adiamento da continuidade da viagem para o dia seguinte.

Seguimos no casco* menor e mais ligeiro, o que neste caso, significaria que a viagem duraria cerca de seis horas, e, dado o horário de partida, resultou em que boa parte do percurso fosse feito à noite. Não vi isso como necessariamente arriscado ou perigoso, pois, é até desnecessário frisar a maestria dos parentes na condução de barcos. Além disso, fomos poupados do sol inclemente que nos afligiria se tivéssemos saído mais cedo.

E fomos... a duas horas de viagem, depois de contemplar um pouco do belo pôr do sol descendo sobre as águas do henê bariá (nome em Hãtxa Kuĩ** dado ao rio Envira), a noite chegou, e em  breve pude reencontrar o motivo maior e primeiro da minha paixão por esta terra: o céu do Acre, com suas milhares de estrelas.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

DIETAS: Equilibrando a substância e o conteúdo do ser...

Por: Jairo Lima

- Não come isso aí não txai! – Alertou-me Maru fazendo-me cessar o movimento de levar à boca uma colherada de um apetitoso pirão de peixe, e olhar para o prato em busca de algo estranho que alertasse meu parceiro de viagens.

- O que foi? – Perguntei, já achando que tinha algo errado com a comida.

- Esse peixe aí tu não pode comer, se não vai afetar tua melhora – Respondeu-me Maru tranquilamente, sem precisar de mais detalhes eu entendi que ele se referia à “dieta” que eu deveria seguir, pois estava me recuperando de uma infecção e aquele alimento seria por demais “reimoso”*.

Desisti imediatamente daquela iguaria às margens do rio Taraya (Tarauacá), enquanto descansávamos à noite no batelão, após um dia de muito sol e poucas novidades em nossa subida em direção à aldeia Goiana, Terra Indígena Praia do Carapanã. Acabei tendo que me contentar com uma farofa de carne moída.

A conversa então seguiu sobre a questão das dietas, com os tipos de comida que deveriam ser evitadas ou usadas, de acordo com as idades, condição física ou de saúde da pessoa.
Assim, pelo restante de minha estadia nesta Terra Indígena até meu total reestabelecimento, segui à risca a dieta indicada pelo Maru e pela Parã.

Essas são minhas lembranças de 2004, e não foi meu primeiro contato como assunto, mas, foi a primeira vez que dei a devida atenção ao tema. Principalmente pelo fato de estar em recuperação de uma enfermidade e a última coisa que eu queria era passar o restante de minha viagem doente, a “dias”** de distância de um hospital.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

VAKEHU SHENIPAHU YAWANAWÁ

Tata Txanu Yawanawá: Foto: Tashka Yawanawá
“Revisitando a memória de um sonho”
Por: Dedê Maia

Em setembro de 2015 fui convidada por Tashka, coordenador da ASCY – Associação Sociocultural Yawanawá - para participar de um “sonho” seu e de Laura, sua companheira, que envolvia as crianças, o qual o batizei de “Território Brincante das Crianças Yawanawá” durante sua elaboração.  
Mais que um desafio foi prazeroso contribuir e sonhar junto esse sonho do Tashkã e da Laura.

O universo infantil indígena, embora eu não tenha, ao longo do meu trabalho como indigenista, me debruçado exclusivamente a este tema, ele sempre me encantou e sempre esteve presente durante a minha trajetória entre as diferentes Terras Indígenas, quando assessorava os professores indígenas das escolas da floresta, através do “Programa de Educação: Uma Experiência de Autoria”, da Comissão Pro-índio do Acre (CPI/AC).

Este universo nos leva a refletir pelos diferentes e muitos aprendizados que passamos ao longo da vida como: que o aprender e o fazer acontecem das mais variadas formas e em diferentes momentos, e em diferentes tempos e; que os conteúdos destas aprendizagens e com quem se aprende também é diverso em cada lugar.

TATA TXANU NATASHENI YAWANAWÁ

Tata Txanu - Foto: Tashka Yawanawá
Por: Tashka Yawanawá*
Sentado numa rede, um pajé reza toda a noite para curar uma pessoa enferma. Reza também para a comunidade global viver saudável em harmonia com as pessoas e o meio ambiente em que vivem. João Ferreira em Português, e Tata Txanu Natasheni em Yawanawa, raquítico, com um semblante suave, caminhada leve, de voz fraca, assim é o Tata.
Engana-se quem pensa que se trata de uma pessoa frágil. Tata possui uma energia de dar inveja a qualquer jovem. Ele dirige, canta e dança durante todo dia e a toda noite, durante os 5 dias do Mariri e Festival Yawanawa. Quem tiver o privilégio e a honra de conhecê-lo, descobre que esse velhinho tão humilde e caladinho é um Rei no mundo espiritual.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

DIREITOS DOS POVOS INDÍGENA: É preciso saber para poder lutar!

Quadro de Elvis Silva
Por: Raial Orotu Puri

Este texto foi grandemente motivado por minha recente experiência de ministrar um mini curso no X Simpósio Linguagens e Identidades da UFAC. O curso, proposto ainda no início do ano, intitulava-se “Saber Direito: curso instrumentação de Direito para Indígenas”, e tratou-se de minha segunda tentativa de emplacar uma proposta que julgo muito urgente: a necessidade de prover capacitação na área jurídica para os povos originários.

Este mini curso compreendeu quatro dias de aula, nas quais exerci uma das atividades que mais me dão prazer na vida: a docência. Nesse sentido, posso dizer sem sobra de dúvida, que terminei a semana me sentindo feliz e realizada. Ao mesmo tempo, o curso foi também algo frustrante, tendo em vista que não consegui atingir o público alvo: à exceção do querido professor Iberê, os meus alunos eram todos raion (não-índio). Felizmente, no entanto, eram raion de um tipo específico, a quem convém também falar, posto que sabem ouvir, e se dispõe a participar dessa tão grande luta que representa a causa indígena.
Devido a esse coeficiente de fracasso, permaneço ainda na minha batalha pela consolidação de um curso de Direito que seja efetivamente para indígenas. O porquê dessa necessidade tão urgente é o que pretendo tentar expor aqui...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

ASHANINKA: O poder da beleza...

Por: Jairo Lima

Sempre que dou alguma palestra, ou atendo estudantes e pesquisadores que buscam saber sobre os povos indígenas do Acre, costumo usar a metáfora do “continente europeu”, para me referir a estes povos. Explico: Imagine o continente europeu e seus países, com seus povos e aspectos culturais. O que eles têm em comum? Bem, todos estão na Europa. Falam a mesma língua? Bem, alguns sim outros não. Todos tem o mesmo aspecto cultural? Não, alguns até tem aspectos parecidos, mas outros têm aspectos totalmente diferentes.

Pois bem. Da mesma maneira é nosso Pindorama e, em menor escala, o Acre indígena, que tantos povos abrigou no passado e, atualmente, possui mais de trinta e quatro Terras Indígenas, onde habitam dezesseis povos. A cultura destes possuem pontos em comum e outros totalmente singulares. Tal qual o velho continente.

Esse preâmbulo todo é para focar em um ponto central que, acreditem, ainda é de desconhecimento da grande maioria da população acreana (e do Brasil, seguramente): os povos originários (que chamamos índios) não são todos iguais! Parece lógica e clara esta afirmação, mas acreditem, esta lógica e clareza não se estende a todas a mentes, infelizmente.

E o que torna esta diversidade tão rica e maravilhosa são justamente as singularidades que compõem esse mosaico cultural.

Em geral vemos comumente nos filmes, novelas, revistas e outras formas de comunicação de massa, referências ou deferências em relação a aspectos culturais de algum país estrangeiro, aspectos que, em muitos casos, passam a ser imitados, principalmente pela juventude, ou incorporado a certos hábitos e costumes dos mais velhos. Isto é visto como um processo de “refinamento” social, uma evolução cultural, uma mostra de superioridade. Tem também, os costumes ditos “exóticos”, que passam a ser replicados como mostra de uma fina interação entre o ser humano contemporâneo e o “primitivismo” essencial à sua existência.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

PENSAMENTANDO....

Huni Kuin - foto: acervo CPI-AC
Por: Dedê Maia

E os textos do meu amigo Jairo Lima - como sempre pérolas, não só pelos temas relevantes que ele nos trás, mas também pela forma peculiar que apresenta seus yumakin (recado para longe) - Instigam o meu “pensamentar”!

Esse tema do “Sagrado Indígena” que ele recentemente expôs tão brilhantemente com suas considerações, levantando questões relevantes, nos convida a uma boa reflexão nesse “tempo da cultura indígena”.

Assunto bastante polêmico, eu sei! Com certeza incomoda muitas pessoas, e por vezes provoca sentimentos raivosos. Mas, fazer o que? Não dá para esconder minhas convicções nesse ponto da minha estrada. Não dá para guardar minhas indagações e observações, sobre pena de ficar mal comigo mesmo, e me perder em caminhos que não me levarão a lugar nenhum.  Essa não é a minha escolha.

A coisa mais bonita que temos dentro de nós mesmos é a dignidade. Mesmo se essa dignidade anda bem maltratada... Mas, bonito mesmo é florir no meio das dificuldades...!!!” - Assim  lembra minha amiga Eliane Potiguara em um de seus belos poemas.

Não ando a cata de votos ou “curtidas”. Minha mensagem vai para quem tiver a fim de ouvir. Ou melhor, de ler, refletir, responder, e até discordar. Afinal não sou dona de verdades. Apenas compartilho minhas reflexões, meu ponto de vista com aqueles que bem receberem, mas não necessariamente, quem as ler precisam concordar.
A princípio comecei a escrever um simples comentário sobre o texto do Jairo. Ao final virou um textão de tanto que ele me fez pensar.

Mas, vamos lá! Seguindo essa “trilha” aberta por esse amigo, com tantos assuntos importantes levantadas por ele nesse caminho, e que me fizeram “pensamentar” tantas coisas!

Sagrado Indígena – Mercantilismo, Pirataria, ou Valorização?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A "GENTINHA"* MANDA AVISAR: ESTAMOS BEM VIVOS!

Quadro de  Elón Brasil


Por: Raial Orotu Puri

Acredito que a melhor forma de começar este texto, é contando da onde veio a demanda por ele. Pois bem, alguns meses atrás, eu conversava com o Jairo, e em dado momento da conversa, ele me perguntou mais sobre meu povo. Dentre as perguntas feitas, ele quis saber em que pé estaria a nossa luta pela terra. Acontece que, como eu expliquei para ele, a luta do meu povo por uma terra passa por um nada pequeno detalhe: nós ainda estamos lutando para provar que existimos.

Eu pertenço ao Povo Puri, também denominado Telikong, ou Paqui. Uma busca que qualquer curioso faça no google pode informar que este povo pertence ao tronco linguístico macro-jê, e suas terras originárias estavam espalhadas por uma região que hoje corresponde a parte dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, na região do rio Parnaíba e Serra da Mantiqueira. Os textos - sempre escritos no passado - também informam aos leitores que os Puri possuíam uma divisão em "pelo menos três subgrupos: Sabonan, Uambori e Xamixuna". E que "No séc. XVIII, antes de serem vendidos como escravos, foram estimados em mais de 5.000 índios. No séc. XIX, foram aldeados em São Fidelis e na Missão de São João de Queluz, registrando-se 655 índios Puri em Resende, em 1841. Em 1885, Ehrenreich localiza remanescentes Puri no baixo Paraíba" (Freire e Malheiros, 2010).


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

SEMINÁRIO AFLORA: ASHANINKA DO AMÔNIA


CURSO DE HÃTXA KUÏ


Contato: ProfDr Joaquim Maná Kaxinawá
(68) 999615837
email: joaquimmana@yahoo.com.br

ASSEMBLÉIA OPIRE 2016



Contato Mario Kaxinawá: (68) 999104683, ou no email: aldenifj@hotmail.com

MERCANTILISMO DO SAGRADO INDIGENA: Pirataria ou valorização?

Mulheres Noke Koi - Foto: Ag. Notícias do Acre
Ontem recebi a visita de um grupo de índios do povo Noke Koi (Katukina) que, entre outras questões que precisavam discutir, me perguntaram a respeito de um certo site, cujo endereço consta em um país estrangeiro, de venda de produtos e medicinas indígenas que utiliza o nome deste povo.

Também ficaram impressionados com certos produtos que, segundo o site, são oriundos deste povo, como por exemplo, curipes e rapé.

Entrei no site e, após uma rápida leitura do seu conteúdo, expliquei para eles a situação orientando-os sobre os devidos processos legais referentes à questão, alertando, claro, sobre a enorme dificuldade de se fazer algo contra sites em outros países.
Essa mesma reclamação, sobre este mesmo site, me foi apresentada por algumas lideranças dos povos Yawanawá e Huni Kui.

Situações como esta, ao contrário do que possa parecer, não é tão incomum, no que se refere aos conhecimentos e patrimônio material e imaterial dos indígenas amazônicos, sendo muito fácil encontrar produtos ditos “indígenas” em sites tanto no Brasil quanto fora deste.

Fiz uma busca rápida na internet e pude constatar, para minha infelicidade, que o comércio do sagrado indígena acreano é o campeão de ofertas. Nestes, podemos encontrar sananga, rapé, kambo, e seus respectivos acessórios para aplicação. Topei com outros produtos também, como mudas de chacrona e de jagube (respectivamente folha e cipó, base do preparo do huni).

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

NÏ NAWA: Encontro com o "Povo da Floresta"...

Nos meus primeiros anos de indigenismo sempre tinha um sonho recorrente que, vez ou outra, insistia em assombrar minhas noites: eu andando na floresta, tentando chegar a algum local e, de repente, topava com um grupo de índios isolados que passavam a me perseguir. Correndo deles, acabava por ser acertado por algo jogado contra mim e... eu acordava!

E sempre que eu estava em alguma uma aldeia, vez ou outra o assunto dos “parentes brabos” entrava na roda, geralmente após a janta quando, “de bucho cheio”, passávamos o tempo conversando e soltando fumaça de nossos piubas* e cachimbo.

Também, nas leituras que fazia, principalmente do “Papo de Índio” e dos relatórios de Marcelo Piedrafita e Terri Aquino, o tema era uma constante, com relatos de aparecimento desses povos isolados em torno de algumas terras indígenas.

Creio que essas informações, aliadas às histórias ouvidas nas aldeias, devem ter contribuído com a recorrência do sonho envolvendo estes povos.

O tempo passou, minha experiência aumentou juntamente com minha idade e maturidade, e este sonho deixou de me assombrar.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

CONFERÊNCIA DA AYAHUASCA: um outro olhar...

Purificando o ambiente- Foto: Sergio Vale
Por: Dedê Maia*

Neste momento não escrevo mais como membro da comissão de organização da segunda edição da a II Conferência Mundial da Ayahuaska, parte indígena, que aconteceu na cidade de Rio Branco, no espaço da Universidade Federal do Acre-UFAC, entre os dias 17 a 22 de outubro que se finda. Escrevo como simples observadora, exercendo meu direito de cidadã com minha liberdade de expressão.

Tento aqui organizar essa colcha de retalhos das memórias do que me foi possível acompanhar de perto durante esta conferência.

Sobre minhas emoções... bem, montanha russa é pouco para descrevê-las.

Mas, deixando minhas emoções de lado, esse evento mudou de fato minha rotina e a rotina de estudantes universitários, professores, Daimistas de igrejas locais, juristas, curiosos, e até de “fofoqueiros de plantão”, que puderam atualizar suas pautas venenosas.
Durante uma semana essas pessoas transitaram entre centenas de estrangeiros de diferentes países (cientistas, médicos terapeutas, neo-xamãs, produtores e idealizadores do evento, etc.), e alguns representantes indígenas, que apesar das inúmeras dificuldades para participarem, conseguiram de alguma forma marcar presença e mandar o seu Yuimakim para o mundo.


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

FESTIVAL YAWA 2016: Em memória do sábio cacique Tuikuru...

Tuikuru Yawanawá - Foto: Rapa Nuy
Para quem já teve ou tem a oportunidade de conhecer o Acre, tendo como foco suas florestas e os povos que ali habitam, fica impressionado com o dinamismo e a vivacidade que movimentam este “mundo paralelo”.

Sempre está acontecendo algo interessante, seja numa aldeia indígena, seja numa comunidade de extrativista, seja numa das centenas de irmandades do daime espalhadas pelas cidades do Estado.

Assim, dando mais cor e movimento a este dinamismo, nesta semana que se inicia, teremos a realização do XV Festival Yawa, realizado pelo povo Yawanawá, aldeia Nova Esperança, TI Rio Gregório. Este evento ocorrerá de 24 a 31 de outubro deste ano.

Saber sobre este povo, ou sobre este festival, não é difícil. Uma busca rápida na internet, além de propiciar o entendimento sobre estes, ainda surpreenderá o leitor ao se deparar com as diversas reportagens e links sobre os projetos e aparições de seus representantes em diferentes espaços sociais e culturais.

O que destacarei na crônica de hoje, no entanto, é um personagem que, sem o qual, tudo o que vemos sobre este povo talvez não se existisse. 

Falo do saudoso Tuikuru Yawanawá, grande cacique deste povo que merece todas as honras por tudo que fez para garantir o território onde hoje se encontra a terra indígena, além de incentivar os jovens a praticar a cultura tradicional.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

AYACONFERENCE 2016: Dissonâncias com o sagrado indígena...

Obra de Tiago Tosh***
O Aquiry Indígena teve uma semana bem movimentada e terminou com o movimento de caravanas de indígenas em direção ao Seringal Empresa (Rio Branco), capital do Estado, a fim de participarem direta e indiretamente da Conferência Mundial da Ayahuasca, que começa nesta segunda-feira.

É um evento que muitos consideram importante, outros nem tanto (meu caso), e que vem suscitando diferentes emoções e manifestações de apoio ou protesto, tanto por parte de seguidores das diferentes doutrinas do Santo Daime, quanto de lideranças indígenas.
Também tem aqueles que oscilam entre o apoio e o protesto, manifestando-se a favor numa semana e contra na outra.

- Mas, o objetivo do evento é científico, academicamente científico – foi a explicação mais ouvida sobre o evento. 

O Acre é o berço da conhecida “doutrina do santo daime”, que engloba três grandes correntes doutrinárias de uso ritualístico do chá sagrado, de origem indígena. Doutrinas estas que se espalharam pelo mundo, dirigidas em grande parte por grandes mestres e, logicamente, gerando interesse acadêmico/científico pelo assunto.

Claro que junto com o crescimento das doutrinas, diferentes interesses e possibilidades também floresceram, umas bem positivas, outras nem tanto.

O chá, muito conhecido no mundo cariu* como ayahuasca, possui diferentes denominações, tanto no mundo destes quanto no mundo indígena.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

POLÍTICAS UNIVERSAIS: Bolsa família e os povos indígenas...

Criança Shanenawa- Foto: Andreia Farias
Faz uma semana que se encerraram as eleições no Acre e não posso negar o alívio de que essa obrigatoriedade desnecessária ficou para trás. Não aceito muito bem este “cabresto” que nos é imposto. 

Aqui na terra de Galvez sessenta e um candidatos indígenas concorreram a vagas do legislativo e executivo. Destes, dez tiveram êxito: um prefeito, um vice-prefeito e oito vereadores.

A vitória do prof Isaac Toto Piyanko Ashaninka para a prefeitura de Mal. Thaumaturgo foi, sem dúvida, além de um marco histórico para o movimento indígena acreano, a consagração de uma trajetória de vida repleta de desafios e coroada de vitórias. Trajetória esta cultivada com muito zelo por este professor indígena que tive a oportunidade de conhecer no ano de 1999.

Mesmo dias depois do resultado das urnas, ainda era possível ver manifestações e matérias jornalísticas falando a respeito de sua vitória.

Das primeiras associações indígenas até a estrondosa vitória do prof Isaac, muitas barreiras foram transpostas e muitos preconceitos foram vencidos. Quem acha que o Acre, por ser um Estado tão rico e conhecido pela cultura de seus povos, não exista preconceitos e intolerância está muito enganado.

Uma fala do Isaac, em entrevista após a vitória, mostra bem isso: “Tentaram usar o fato de eu ser índio contra mim. Falaram que eu iria dividir terras do município para os indígenas e outras coisas, mas eu tentava informar a sociedade e desconstruir essas mentiras”.
Pelo Brasil, a partir do monitoramento das redes sociais, foi possível constatar vitórias de indígenas para as câmaras municipais. Vitórias modestas, claro, mas com um significado importante para o movimento indígena e indigenista.

Não me iludo achando que os resultados das eleições trarão mudanças significativas para as políticas indígenas, mas também, não sou tão jovem e cético para achar que essas conquistas não são importantes.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

MULHER INDÍGENA: Diversos olhares, muitos papéis...

Mulher Huni Kuin- Foto: Jairo Lima
Observando a imagem que a revista Xapuri selecionou para ilustrar minha crônica da semana passada, não deixei de perceber a beleza e a força que ela emanava.

A imagem era uma fotografia, tirada pelo Prof BinhoMarques, que mostrava duas indígenas Ashaninka, entre elas a agente de saúde Dora Piyanko Ashaninka.

Isso me fez pensar nessa figura, “mulher indígena”, na contemporaneidade indígena do Aquiry* e o assim chamado “papel” que ocupa em sua comunidade e nos processos de interações e interlocução social com o mundo do Yura**.

É muito comum que, ao ouvirmos falar da mulher indígena, somente façamos a ligação mental com os afazeres ditos “femininos” em uma aldeia, como cuidar dos filhos, preparar alimentos, cuidar da casa, etc. Visão enganosa que podemos comparar com a ideia tradicional e conservadora de nossa sociedade, que ainda insiste no termo cafona e limitante do papel da mulher, enquadrando-a tão somente como “do lar”.

- Só que não, cara pálida!

O assim chamado "universo feminino indígena" é muito amplo, e sem o qual, o que conhecemos como cultura indígena não teria a riqueza e profundidade que estamos acostumados a ver.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

VIVÊNCIAS E COTIDIANO: Fugindo dos padrões e retângulos da vida...

Noite no Jordão - Foto: Ion David
A semana que passou trouxe perspectivas de mudanças.

Nas rodas de conversas e nas mensagens “levadas pelos ventos“ no Juruá sinalizam haver chegado o momento de discutir e implantar mudanças.
No alto Juruá a campanha do prof Isaac Toto Ashaninka ganha força. No médio Tarauacá os Huni Kuin da TI Praia do Carapanã vão se reunir para discutir a cultura e, no Envira, os Shanenawa já sinalizam que os meses finais deste tumultuado ano de 2016 trarão mudanças sensíveis na organização de suas comunidades.

Na sociedade nawa (não-índio), ainda estamos numa encruzilhada de possibilidades que, à primeira vista, não são muito claras. Também, este período eleitoral em que estamos em nada contribui para certezas futuras.

Mas, temos mudanças muito mais profundas que vem transformando nossa sociedade e cultura, consolidando novas dinâmicas “de vida” em nossa contemporaneidade urbana.

Não gostar de mudanças é uma característica humana. Claro que neste mundo diluído que vivemos hoje em dia, as mudanças ocorrem na velocidade com que somos bombardeados com novidades tecnológicas, novos paradigmas sociais e novas tendências culturais.


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

NAWA XARABU BU HUNËA*: Invisibilidade ou indiferença?

Crianças Huni Kuin - Foto: Talita Oliveira**
Na semana que passou li duas noticias que me causaram diferentes sentimentos. Notícias estas que, em comum, tinham os mesmos temas: morte e visibilidade midiática.

Obviamente que uma delas o leitor vai deduzir se tratar do afogamento do ator Domingos Montagner.

A outra, poucos ou praticamente nenhum dos leitores poderia deduzir. Trata-se da divulgação do relatório “Violência contra os Povos Indígenas do Brasil”, que nos trouxe dados que mostram haverem ocorridas 891 mortes violentas de indígenas no Brasil entre 2003 e 2015.

Como escrevi acima, estas notícias percebidas por mim trouxeram emoções distintas.

A primeira vi rapidamente e com indiferença, pelo fato de que eu não fazia ideia de quem seria este ator que morreu, ou sequer que existia um ator com este nome. Não sabia de que trupe ou canal o mesmo pertencia, pois tomei conhecimento de sua morte pelo facebook, através das postagens com carinhas tristes e lágrimas escorrendo. Geralmente "passo direto" quando vejo estes emoticons. Assim, na hora dei de ombros, pois outro sentimento logo me tomou de assalto ao ler a matéria seguinte, do site Amazônia Real sobre o relatório que trazia os dados e contextos das mortes dos indígenas.

Li a matéria, passei os olhos nas informações do relatório, e fiquei triste, pois me lembrei do nome de alguns destes mortos. Lembrei-me de seus rostos. Lembrei-me da profissão de alguns deles. Lembrei-me, ainda, de alguns momentos descontraídos e divertidos que tive junto com alguns deles. Pensei e até escrevi um comentário quando compartilhei o texto na minha timeline: infelizmente, estes são os “invisíveis” e as suas mortes não causam tanta consternação quanto a de outros. Respeito o luto nacional por suas figuras púbicas, mas me dói muito pelo desconhecimento e a falta de reconhecimento nacional deste genocídio que vem ocorrendo com nossos povos originários, os verdadeiros donos desta terra...