sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

POR FAVOR, PARE DE FAZER DE CONTA QUE NADA ACONTECEU!

Por: Raial Orotu Puri

Outro dia nas minhas memórias do Facebook fui recordada de um compartilhamento de 2015 que fiz de uma postagem de uma moça dizendo que a sua proposta para o programa de retrospectiva de final de ano era bem curta: fazer de conta que nada aconteceu e desejar feliz 2016. Ao rever a lembrança, ri de novo da piadinha, mas hoje este ‘meme’ me voltou à memória em outra perspectiva aonde o riso deixou de caber...

Assim, gostaria de aproveitar o clima de final de ano, época de retrospectivas tanto televisivas quanto pessoais, para abordar o assunto dos ‘balanços’ de fim de ano.  Acontece mesmo quase sempre que o mês de dezembro seja uma etapa de fechamento de muitas coisas, de retrospectivas e, obviamente, de planos para o futuro.

Inclusive, como é de conhecimento dos leitores desse blog, é nesse clima que se darão na semana que vem dois importantes eventos no Juruá dos quais tomarei parte: a Conferência das Organizações Indígenas do Vale do Juruá, e, em seguida, a Yubaka Hayra, (Conferência Indígena da “Ayahuasca”.) O primeiro evento terá, dentre outras coisas, a apresentação das atividades realizadas ao longo de 2017 pelas instituições indígenas da região; por sua vez, o segundo será o início de uma discussão demandada há muito, de um espaço especificamente indígena para discussão da possível patrimonialização da bebida ‘ayahuasca’.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

UMA NOITE MÁGICA NO TERREIRO DO POVO ASHANINKA: Quando entendi que poderia aprender a voar...

Por: Jairo Lima

Em 2003 as coisas não estavam nada bem pro meu lado. Muitos problemas e pensamentos cruzados infernizava-me a existência e o juízo. Não saberia dizer o que 'tava pegando', mas, com certeza, estava diretamente ligado a uma mudança de ciclo na vida: eu havia tomado uma decisão que daria um novo 'rumo' na vida.

Não que eu estivesse passando por alguma 'panema'*, mas, tinha certeza que 'algo' turvava-me a 'visão' e prendia-me num círculo vicioso de tristeza e incertezas.

Como já conhecia e comungava rotineiramente do 'vinho das almas'** sabia que boa parte desse sentimento poderia ser de origem espiritual ou energético. Quem tem um mínimo de senso de espiritualidade deve saber muito bem do que estou falando. A questão é que isso estava me fazendo mal, perturbando-me de tal maneira que havia transformado meus dias em triste rotina melancólica, desprovida de cores e alegrias, onde nada parecia fazer sentido.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

QUE TAL PARAR DE BANCAR A CACHINHOS DOURADOS DA ESPIRITUALIDADE ALHEIA?*

Por: Raial Orotu Puri

Este texto é em parte uma continuidade de conversas anteriores, e em parte uma sobreposição de pequenos incômodos que sinto com alguns discursos dentro da temática indígena, seja ela acadêmica, seja ela desde a perspectiva da causa, da vida, e, claro, do ponto de vista do ‘caminho sagrado’.

Bom, na perspectiva do Sagrado não pretendia me adentrar, pois penso que o Jairo já tem escrito profunda e brilhantemente sobre isso em vários textos, e realmente, em matéria de Sagrado Indígena eu penso verdadeiramente que não é o tipo de tema que eu considere um território a respeito do qual eu possa discutir com propriedade. Mas acontece que aqui eu queria exatamente sobre ter ou não propriedade, e sobre a enorme distância que existe entre conhecer um pouco e dizer que sabe e pode ensinar sobre seja lá o que for.

Como não deve escapar a ninguém, eu não gosto de falar desse tema. Mas acontece que, volta e meia, eu acabo recebendo mensagens de amigos que me encaminham links para casos e mais casos de desrespeito, apropriação e falta de noção. Algumas vezes, o assunto é puxado com ‘você viu isso?’. Bom, algumas dessas coisas são bem problemáticas, e eu gostaria de ser capaz de ‘desver’ a maioria delas... Mas ainda não aprendi essa capacidade, e por essa razão, vou vendo, me incomodando, e escrevendo a respeito.  

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

UM JOVEM SERINGUEIRO: Minhas aventuras juvenis nos rios de Tarauacá

Por: Txai Antônio Macedo

O marinheiro...

De meus 14 aos 17 anos de idade passei trabalhando como marinheiro nas embarcações da Empresa Leal Maia & CIA na cidade de Tarauacá. Era um tipo de embarcação conhecido na região como ‘batelão’, que pode chegar até vinte toneladas, como era o caso dos batelões: Ramos, Asa Branca e Canoa Muru. Havia também as ‘lanchas’ (barcos de grande porte), que iam de quarenta e cinco até sessenta toneladas,  como as lanchas Jaminawá (45 toneladas) e Rio Tauarí (60 toneladas). O trabalho consistia em subir e descer os rios e igarapés, percorrendo varadouros e varações. Nossa missão era abastecer cem seringais pertencentes à Empresa Leal Maia & CIA LTDA e muitos outros que tinham sua produção financiada por esta empresa. Era nossa missão: escoar a produção recebida dos seringais, transportando-a para a cidade de Tarauacá, de onde seguiria para Manaus e Belém.

Era uma missão espinhosa, cheia de dificuldades. Nós, por pura responsabilidade adquirida de berço, tínhamos que tomar conta e dar conta, sempre da melhor forma possível, mesmo que fosse trabalhando só mesmo na fé e na coragem, como se poderá observar no conjunto dos fortes e episódios que narrarei em seguida.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

CONFERÊNCIA INDÍGENA DA AYAHUASCA: desconstruindo a Torre de Babel...


Por: Jairo Lima

Passa-se um ano, novembro de 2017, numa roda de conversa entre sertanejos, sob o céu estrelado de Quiserademim, sertão do Ceará, seu Ariano Suçuarana, sábio ancião daquela comunidade camponesa, com seu afiado canivete corta troços de rapadura e distribui para os amigos em volta poderem degustar do doce alimento. E comenta: — Que povo diferente esses cientistas nacionais e estrangeiros. Pra conhecer o sabor da Rapadura, não basta provar?
O excerto acima é o arremate do texto publicado pelo professor Juarez Duarte no Jornal Grande Bahia, sob o título ‘1ª Conferência Indígena da Ayahuasca. Ayahuasca e rapadura’*,  além de bastante cômico, foi de uma genialidade ímpar ao aludir os contrastes entre a busca acadêmica/científica por explicações e o apreço/conhecimento derivado do simples fato de apreciar e ‘provar o sabor’ daquilo que se propôs a estudar/pesquisar.

Muita água passou por baixo da ponte nessas duas semanas que se passaram, desde que publiquei o último texto, cedendo lugar à querida Dedê Maia, que nos apresentou seu documentário Xinã Bena Beisikit Xarabu, que estreou em Rio Branco no último dia 19 de novembro e tem sua premiére indígena marcada para ocorrer durante a Conferência Indígena sobre ayahuasca, entre 13 e 17 de dezembro.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

SOBRE CAMINHOS…

Por: Raial Orotu Puri

Um tempo desses atrás uma amiga fez um comentário sobre uma foto minha de que gosto muito. A questão me voltou à memória, devido a uma parte de uma conversa muito bela e produtiva que tive na data de ontem. O comentário de minha amiga falava que sempre que via a minha foto, ela pensava em ‘caminho’, caminho esse que a chamava a ser trilhado.

À época da conversa, esclareci à minha amiga que, de fato, a imagem era de uma ponte que atravessava de um lado a outro sobre uma espécie de lago, que, por um fato específico ocorrido naquela Terra Indígena, com o povo que ali habita, pode ser entendido como um espaço sagrado. E o é realmente. Quando se visita aquele espaço, é possível sentir a sacralidade do local. É claro que este Sagrado tem certas características, que obedecem à lógica específica inerente ao mundo indígena e, por isso, entendo que nem sempre esse sagrado seja o tipo de sagrado esperado por olhares externos, e é sobre isto que gostaria de discorrer ao longo dessas linhas – espero concluir com algum sucesso.  

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 5

Por: Txai Antônio Macêdo
Da colocação Currimboque a cidade de Tarauacá


Diante a situação de saúde da minha mãe e por necessidade de que seus filhos frequentassem escolas, meu pai decidiu voltar da colocação Currimboque para a cidade de Tarauacá. Nessa época eu estava com doze anos de idade...

Nosso retorno foi muito trabalhoso, pois, assim como foi quando nos mudamos para a colocação, tivemos que levar todas nossas ‘tralhas’ nas canoas igarapé abaixo a até desaguar no Rio Muru outra vez. E assim descemos o igarapé São José, matando paca para fazer nosso rancho da viagem.

Pernoitamos a última noite de descida na colocação de seu José de Castro. Quando chegamos nessa colocação recebemos a notícia de uma festa que aconteceria naquela noite, na casa de seu Agenor Moura, localizada na margem do Rio Muru e logo abaixo da foz do Igarapé São José. Eu e meus irmãos ainda nos animamos para chegar a festa naquela noite, mas meu pai e minha mãe não permitiram, por isso nos acalmamos e ficamos conformados com a decisão. No dia seguinte saímos na confluência do rio Muru e dali era só descer até a cidade. Mal havíamos começado a descida, e, ao cruzar com outros viajantes, logo ficamos sabendo dos boatos da festa.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

XINÃ BENA: Um novo tempo, o tempo da cultura… o tempo de ‘novos espelhos’...

Por: Dedê Maia

Fui apresentada aos Huni Kuin, também conhecidos como Kaxinawá, no final da década de 70, pelo antropólogo Terri Valle de Aquino, meu querido Txai Terri, com quem iniciei meu caminhar pelas aldeias do Aquiry*, e meu trabalho como pesquisadora indigenista.  A maior parte dele, realizado entre famílias Huni Kuin, de diferentes Terras, de diferentes aldeias.

A primeira delas foi entre as famílias Kaxinawá do rio Humaitá. Esta experiência está no meu livro “Viagens pelos Rios do Interior”**, organizado primeiramente pela minha filha Teti Coube e editado pelo meu amigo Jairo Lima, a ser lançado brevemente. No entanto foi entre as famílias Kaxinawá da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Jordão – Município de Jordão, no Acre, que dediquei à maior parte do meu trabalho.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

“TU ÉS MARABÁ!”: Sobre estereótipos e algumas discussões contraproducentes que não levam a lugar nenhum – a não ser ladeira abaixo.

Por: Raial Orotu Puri

Marabá é um poema publicado em 1851 pelo poeta Gonçalves Dias (1823-1864), no livro Últimos Cantos. Escrito em plena época do Romantismo, o poema tem um viés claramente nacionalista, aonde o indígena é exaltado como símbolo da brasilidade. A índia eu-lírico do poema é uma ‘marabá’, isto é, mestiça. Seu nome não é citado nos 54 versos, que, por outro lado, se dedicam a descrever sua aparência: através deles, descobre-se que ela tem cabelos cacheados, olhos verdes e tez branca. Tais características fazem com que a moça seja rejeitada, posto que ela não possui nenhum dos ideais de beleza que apreciados por seu povo.

Marabá é uma palavra do tupi-guarani que pode ser traduzida como inadequado, defeituoso, impróprio, diferente. É também uma palavra usada para reporta-se aos mestiços, filhos da mistura entre índios e brancos, razão pela qual são considerados imperfeitos ou impuros, desde a perspectiva da cultura indígena.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 4

Altar de Santa Maria da Liberdade, capela em Feijó
Por: Txai Antônio Macêdo

Ainda na colocação Currimboque: Promessa feita, dádiva recebida e sacrifício pago

Num daqueles ‘dias de branco’ -  como costumavam dizer os seringueiros adultos - , sai para cortar minha estrada de seringa, São José ‘de cima’ (lembrem-se disso: toda estrada tem seu próprio nome) e no decorrer do trabalho, naquele dia, adquiri uma febre fortíssima.

Ocorre que eu havia passado por baixo de um pé de Palmari e não vi a árvore, e por isso, ganhei aquela famigerada febre. Para aumentar minha má sorte naquele dia caiu uma forte chuva, e eu ainda estava longe de casa. Tive que sobreviver toda aquela chuvarada com a febre que me atacava de forma quase intolerável. Cheguei na casa de meus pais usando uma ‘muleta’  improvisada, feita com pau de caneleiro, e sem querer deixei minha mãe muito assustada, especialmente, ao me ver andando apoiado nessa muleta.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

YUBAKA HAYRÁ: Iniciando o papo sobre a Conferência Indígena Ayahuasca...

Por: Jairo Lima

- “Você não vai escrever nada sobre o encontro Yubaka Hayrá?” - Ouvi e li esta pergunta uma quinze vezes nas duas últimas semanas.

Esse questionamento se deu mais por causa de minha posição, devidamente registrada e divulgada, quando da edição 2016 da Aya Conference. E não escondo que até hoje muitas ‘coisitas’ que rolaram neste evento ainda estão pairando no ar, e garanto a vocês que não são poucas.

Mas, ok… vamos lá, começar esse papo tão necessário...

Na semana que passou, onde os olhos materiais e as atenções continuaram, em sua maioria, focadas nas polêmicas políticas e sociais da Pindorama, eu estive às voltas com o corre-corre e demais detalhes da organização da 1a Conferência das Organizações Regionais Indígenas e da 1a Yubaka Hayrá (1a Conferência Indígena Ayahausca). Garanto que isso tomou-me o tempo, a atenção e, claro, o humor. Reuniões, ligações e o escambau a quatro misturaram-se à análise das fichas de inscrição de um bocado de gente interessadas em vir para o evento da ayahuasca.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

SOBRE OS PÁSSAROS E AS REDES SOCIAIS

Por: Raial Orotu Puri

Algumas semanas atrás li um artigo que tratava de comparar a cultura do canto dos pássaros com o fenômeno das redes sociais. O artigo foi para mim – que não entendo nada de ornitologia – um tanto hermético, mas apesar de tudo, muito esclarecedor. Achei o tema muito interessante, e tenho pensando em escrever algo sobre isso desde então. No entanto, sentia que não me encontrava preparada para fazê-lo, devido justamente ao fato de achar que não havia conseguido apreender em profundidade alguns dos conceitos utilizados pelo autor.
Hoje, no entanto, após ler outra matéria tratando de redes sociais, voltei a pensar no artigo sobre o canto dos pássaros, e me vejo compelida a falar deste tema...

Bem, o referido artigo sobre os pássaros dizia que, para além de atrair parceiros e demarcar territórios, as aves utilizam os seus cantos como forma de diálogo, e que a cultura dos cantos pode evoluir ao longo das gerações, através da introdução daquilo que o autor chama de ‘sílabas raras’, que, de início podem sofrer resistência por parte da comunidade da espécie, mas que com o passar do tempo podem ir sendo incorporadas à cultura geral.

O texto prossegue explicando alguns mecanismos pelos quais se faz possível que os cantos não entrem em colapso devido à inovação excessiva, nem acabem se tornando de tal forma uniformes que tornem impossível quaisquer introduções do novo. Esta é a analogia usada pelo autor para demonstrar certa semelhança entre as mudanças que a internet tem imprimido na cultura humana, e a necessidade da adoção de mecanismos que permitam que nenhum dos dois extremos nos ameace: nem o caos, nem a excessiva uniformidade.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 3

Por: Txai Antônio Macêdo
A vida na colocação Currinboque

Ali era louco, era inóspito, como se dizia lá: "Tudo no bruto há 18 anos".  

A colocação Currimboque, onde estávamos morando e trabalhando, fazia já dezoito anos que não era habitada por ninguém. Por isso, tudo ali já havia regenerado, mas foi preciso trabalharmos muito para edificar casa de morada, defumadores, galinheiros, cercado para jabutis, roçados e reabertura das estradas de seringa.

Nossa colocação distava cerca  de seis horas da sede do Barracão Colombo localizado na margem direita do Rio Muru. As colocações que se avizinhavam eram: Cius, com seis horas de viagem a pé já nas águas do igarapé Ciús, pertencente às águas do Rio Envira; Cocal com quatro horas de viagem a pé; Campos da Cruz, com duas horas de viagem a pé e; Paiol da Lama, com três horas de caminhada pela floresta.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

UM ‘CAUSO’ ENTRE OS YAWANAWÁ: o dia em que o velho Yawa me enfeitiçou...

Por: Jairo Lima

Fui convidado para um jantar na casa de um casal amigo, onde se reuniram o grupo que participou, por indicação minha, do XVI Festival Yawanawá, na aldeia Nova Esperança, Terra Indígena Rio Gregório.

Entre drinks e petiscos, os vozerios entrecortados por risos e pantomimas narravam as ‘aventuras’ vividas nos três dias de festividades que participaram. Mirações com o uni (ayahuasca), as brincadeiras, a caiçumada e outros detalhes da festa tomavam forma a cada momento em que eram citadas. Como não poderia ser diferente, o consenso geral foi de que a experiência vivida, já que para quase todos era a primeira vez que participavam, foi um marco em suas vidas.

Eu, na mesma emanação, entre as beberagens e petiscagens misturava-me ao assuntos, ao passo que minhas próprias lembranças rodopiavam em minha mente, algumas tomando a forma de palavras que, de certo modo, divertiram os demais presentes.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

EXPLORAÇÃO E RESISTÊNCIA: Povos indígenas no contexto das dinâmicas de fronteira Brasil - Peru

Por: Maria Luiza Pinedo Ôchoa

Dando continuidade aos trabalhos desenvolvidos pela Comissão Pró Índio do Acre e associações indígenas na região do Alto Juruá, foi realizada no período de 28 de setembro a 10 de outubro, a II oficina de atualização do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. A oficina permitiu discutir, refletir, atualizar informações e acordos que compõem o Plano, como também novas estratégias de proteção dos territórios e sustentabilidade dos recursos naturais, diante das diversas mudanças e desafios dos últimos anos que afetam os povos Huni Kuĩ e Ashaninka desta TI e comunidades que moram na Reserva Extrativista do Alto Juruá, na região de fronteira do Acre com o Peru.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 2

Por: Txai Antônio Macêdo

Meus tempos de criança eram tempos difíceis, mas, mesmo assim muito animado. Muitas coisas aconteciam...

Um grito na floresta
Eu já trabalhava ajudando a minha mãe nos roçados. Meu ofício era carregar água limpa das fontes, para minha mãe e minhas irmãs beberem quando se encontravam trabalhando nos roçados.
Junto com minha irmã Kon Kem, durante o verão, pescáva-mos camarão em meio aos paus dos igarapés e fazíamos comidas muito gostosas, mas, eu gostava mesmo era do camarão assado no espeto e na brasa do fogão. E nesses momentos passávamos sempre por muitas aventuras, como, certa vez, quando fomos ‘pastorear’ passarinhos do tipo graúna e chupão, que comiam todo arroz dos roçados.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

SAGRADO INDÍGENA: Não confunda respeito com adoração…

Por: Jairo Lima

Por que, em vez de respeitar e seguir os conselhos dos mestres passamos a dever-lhes culto, adoração e obediência? - Estive matutando sobre isso durante a semana, enquanto participava das discussões sobre a realização da I Conferência Indígena da Ayahuasca, a Yubaka Hayrá.

Uma coisa que aprendi nessa convivência de muitos anos com os povos indígenas foi entender  a profundidade da palavra ‘respeito’. Palavra esta extensível a muitas coisas, entre estas a busca espiritual.

Deve ser porque os tempos de minhas andanças mais constantes pelas aldeias no Aquiry foram em épocas em que não existia esse ‘booom’ xamânico de butique, de maneira que, para ter acesso aos ensinamentos profundos dos mistérios encantados do huni (ayahuasca) era preciso encarar muitos dias de viagens, suportando os infernais piuns e as agruras do inconstante e mal-humorado clima amazônico.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UM ESCLARECIMENTO PARA ALGUNS RACISTAS: Somos muito mais do que apenas os ossos e o passado que vocês reverenciam


Por: Raial Orotu Puri
"Quando os acadêmicos vêm falar com a gente é só pra fazer pesquisa. Não nos veem como povo, como pessoas, somos apenas ossos.” -(Vherá Poty , 19/10/2016, Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira - Regional Sul.)

Devido a algumas questões que vivenciei na semana que passou, fui levada a recordar de uma conversa havida meses atrás com uma arqueóloga estrangeira em visita ao Acre. No referido diálogo, ela me perguntou se eu já havia visitado um Geoglifo, e me falou sobre o quão importante é tal experiência, para, palavras delas “poder reconhecer a perícia e sabedoria das populações ameríndias que habitaram a Amazônia milhares de anos atrás”...

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 1


Por: Txai Antônio Macedo

Começa aqui, a partir deste texto, uma série de memórias que marcaram este personagem que vos escreve. Acompanhe as travessuras desse amigo de todos vocês através deste espaço de crônicas indigenistas...

O que penso da palavra saudade? Bem, meu tempo de criança às vezes me dá saudades... ás vezes não. Na minha concepção, saudade é palavra triste do ponto de vista da perda ou distância de alguma coisa infalível, ou uma maneira de lembrar com alegria, pessoas ou momentos vividos. Se assemelha a faca que corta nos dois gumes.

Abro essa conversa aqui falando de mim mesmo, e dos meus tempos vividos de infância nos seringais do Aquiry. Graças a Deus, não perdi um grande amor, nesta estrada longa da vida, e mesmo assim, vou chorando a minha dor, igual uma borboleta, vagando por sobre a flor.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

SOBRE LUTO, PENSAMENTOS, ESPINHOS E FLORES…

Por: Jairo Lima

Olhando para o cursor piscando na página em branco virtual a tela do meu computador fico pensando em várias coisas, enquanto a brisa fria alisa-me as sensações e me fazem querer voltar para a cama, deixando ‘tudo pra lá’.

Os fortes ventos e a fria chuva do inverno nos trouxe uma semana de tristeza e indignação no Aquiry indígena, trazendo dois fatos que, apesar de singulares, na essência, trazem um ponto comum de reflexão e nos remetem a pensamentos profundos sobre essa natureza social e cultural que separa os grupos humanos, destacando as virtudes de uns e ignomínia de outros.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CRIANDO O ÓDIO E CULTIVANDO A INDIFERENÇA: algumas reflexões a mais sobre a falta de empatia para com as questões de vida e morte dos povos originários

Por: Raial Orotu Puri


O ódio não vem apenas do medo e da incompreensão do desconhecido e do diferente. Ao longo da história, o ódio também foi uma construção que serve a fins políticos. Construção tão bem feita que passamos a achar que aquilo plantado dentro de nós por terceiros sem que percebêssemos, na verdade, é nosso. (Leonardo Sakamoto)

Recentemente li o artigo do Jornalista Leonardo Sakamoto, do qual extraí o excerto acima, e que trata de como ondas de fundamentalismo, intolerância e moralismo podem ser fomentadas mediante a utilização dos veículos de mídia. Embora abordasse a questão dos recentes casos de ataques à manifestações artísticas, o artigo analisava o uso dos mesmos por políticos interessados em aumentar sua popularidade afim de conquistar votos – especificamente citando o caso de Lorde Farquaad*, o atual prefeito engomadinho de São Paulo.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

UMA VIAGEM PELOS JARDINS DOS POVOS INDÍGENAS

Homenagem à jornalista Laura Rachid
Por: Antônio Macêdo

Hoje me dirijo aos meus leitores com o mesmo amor e carinho que sempre chego às muitas aldeias e seringais do Acre, do Sudoeste do Amazonas e Noroeste de Rondônia.
Assim como também cheguei aos diversos lugares do Brasil, como Cuiabá-MT, Brasília-DF, São Paulo-SP, Rio de Janeiro-RJ e até fora do país, como Estados Unidos, França, Inglaterra, México, Noruega e outros cantos do mundo que já andei a trabalho do desenvolvimento dos povos da floresta.

Hoje, venho falar de mais uma dessas lindas viagens feitas na floresta do meu estado do Acre, com o intuito claro de homenagear uma pessoa querida.
Laura Rachid, uma amiga jornalista maravilhosa de 24 anos que realizou sua primeira experiência nas aldeias indígenas do Acre. Visitou os povos Huni Kuin do Alto Tarauacá, Rio Jordão e Rio Breu, passou pelo povo Apolimas-Arara para chegar à aldeia Ashaninka do Rio Amônia, dormiu em aldeia Ashaninka do Rio Breu e conheceu os Kuntanawa do Rio Tejo. Tudo isso em minha companhia por 52 dias, na recente viagem que tive o privilégio de realizar.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

EXERCITANDO A ARTE DE VIVER: Ensinamento Ashaninka...

Ou, como uso o conhecimento do Povo Ashaninka como uma de minhas filosofias de vida…
Por: Jairo Lima

“(...) Nossa cabeça é como o mundo e o mundo é como nossa cabeça. A testa é o pensar. O pensar é a calma (1), a ação, a adrenalina, o susto (2) e a reflexão (3). Os Ashaninka sempre agiram para manter esses três em equilíbrio” - Wewyto Ashaninka*

Parece que o céu se diluiu totalmente em lágrimas que lavaram e abençoaram o Juruá. Miríades de cupins voadores, que o povo daqui costuma dizer que é uma ‘formiga’, invadiram o céu à tardinha e se aglomeraram enlouquecidamente em torno de qualquer facho de luz, como se estivessem hipnotizados. Assim foi o fim de semana que oficialmente abriu nosso inverno, e que, se nos balizarmos por esta pequena amostra, certamente teremos meses muito ‘molhados’.

Não sei definir como foi a semana que passou, ao contrário do que faço comumente, pois, ao sentir os nervos à flor da pele e a mente sobrecarregada de preocupações, me dei conta de que precisava ‘retirar-me’ desse plano, camuflando-me de maneira despercebida, como se o ‘mundo’ passasse por mim inadvertido de minha presença e eu, também, despercebido, não daria conta da passagem deste.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

TEMPOS CONFUSOS E INSENSÍVEIS...

A crescente repressão que a arte vem sofrendo no Brasil é realmente uma questão complicada... mas você já ouviu falar do Genocídio Indígena?

Por: Raial Orotu Puri

Realmente vivemos tempos estranhos nessa terra que batizaram de Brasil... As notícias, movimentos, mobilizações e fogueiras cotidianas da internet de fato têm deixado explícito que, parece que quanto mais avançamos no tempo em termos históricos, mais as pessoas parecem ser invadidas por um certo quê de ethos medieval. Um dos campos que mais tem despertado este espírito é o das artes, com um conjunto de situações estranhas em que repentinamente exposições, quadros e performances são julgados por uma multidão de críticos de arte saídos do nada.

Bem, sobre esse assunto, eu gostaria de dizer que não tenho necessariamente uma opinião muito completa a manifestar. Antes de qualquer coisa, porque eu não sou crítica de arte, nem a consumo em profusão o suficiente para me arrogar a isto. Claro, não estou dizendo que só quem tenha alguma formação ou qualquer coisa do tipo possa omitir opiniões sobre o que é ou não arte. É só que eu penso que nesses casos deveria valer aquela regra de ouro de que o fato de eu não gostar de um determinado tipo de arte não me concede legitimidade para simplesmente decretar que aquilo de que não gosto não é arte.

Afinal de contas, existe uma diferença bastante considerável entre eu não gostar de algo, e acreditar que o meu ‘não gosto’ me dá algum direito quando a dar um veredito sumário acerca da impossibilidade de existência daquilo de que eu não gosto, não é mesmo?! Do mesmo modo que existe uma diferença enorme entre considerar uma arte ruim e associá-la à apologia a um crime dos mais graves, tal como é a associação que tem sido feita à pedofilia. (Cite-se sobre isso o caso de um quadro que era uma denúncia e que foi tratado como apologético...)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O COMEÇO DE MINHA HISTÓRIA: Do berço de ouro ao paraíso perdido

Por: Txai Antônio Macêdo
Primeiras memórias: meu pai...
Procuro reconstituir a memória e a história de um grande infante, porém determinado, e  por sua vez traído pelo destino inóspito de um “paraíso perdido”.

Meu pai senhor Raimudo Batista de Macêdo, por ironia do destino aos seus nove anos de idade saiu de Belém de onde vivia em glória junto com meu avô Miguel Arcanjo de Macêdo, minha avó Luíza Guedes de Macêdo, meu tio José Batista de Macêdo (J.Macêdo), suas irmãs Noêmia Cunha de Macêdo, Edite Batista de Macêdo, Josefa Batista de Macêdo dentre outros possíveis irmãos.

Nascido em 27 de setembro de 1909, por volta de 1918, com aproximadamente 09 (nove) anos de idade foi autorizado por meus avos acompanhar sua madrinha numa viagem aventureira ao Aquiri, atualmente Acre. Localidade que mais tarde passou a ser chamado território do Acre.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

SAGRADO DE BOTECO e outras reflexões sobre as esquisitices da semana...


Por: Jairo Lima

Nesta semana confusa, onde uma forte chuva indicando a chegada de nosso ‘inverno’ amazônico trouxe destruição e prejuízos ao Seringal Empresa*, aqui pelas bandas do Juruá as águas ainda não caem com tanta frequência, mas o vento fresco e a sensação de ‘abafado’ é o sinal que vem muita água em breve.

Não posso dizer, nem reclamar que o mês octo** chegou de mansinho, em passos tediosos. Ao contrário, entre os afazeres da labuta diária e ‘papos de índio’ bem interessantes, não pude deixar de registrar em meus alfarrábios mentais algumas situações que, se não carecem de maior atenção através de um papo mais profundo, também não poderia deixar passar ao largo de minha pena. Destas situações cito uma bem interessante.

Vamos lá...