sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CRIANDO O ÓDIO E CULTIVANDO A INDIFERENÇA: algumas reflexões a mais sobre a falta de empatia para com as questões de vida e morte dos povos originários

Por: Raial Orotu Puri


O ódio não vem apenas do medo e da incompreensão do desconhecido e do diferente. Ao longo da história, o ódio também foi uma construção que serve a fins políticos. Construção tão bem feita que passamos a achar que aquilo plantado dentro de nós por terceiros sem que percebêssemos, na verdade, é nosso. (Leonardo Sakamoto)

Recentemente li o artigo do Jornalista Leonardo Sakamoto, do qual extraí o excerto acima, e que trata de como ondas de fundamentalismo, intolerância e moralismo podem ser fomentadas mediante a utilização dos veículos de mídia. Embora abordasse a questão dos recentes casos de ataques à manifestações artísticas, o artigo analisava o uso dos mesmos por políticos interessados em aumentar sua popularidade afim de conquistar votos – especificamente citando o caso de Lorde Farquaad*, o atual prefeito engomadinho de São Paulo.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

UMA VIAGEM PELOS JARDINS DOS POVOS INDÍGENAS

Homenagem à jornalista Laura Rachid
Por: Antônio Macêdo

Hoje me dirijo aos meus leitores com o mesmo amor e carinho que sempre chego às muitas aldeias e seringais do Acre, do Sudoeste do Amazonas e Noroeste de Rondônia.
Assim como também cheguei aos diversos lugares do Brasil, como Cuiabá-MT, Brasília-DF, São Paulo-SP, Rio de Janeiro-RJ e até fora do país, como Estados Unidos, França, Inglaterra, México, Noruega e outros cantos do mundo que já andei a trabalho do desenvolvimento dos povos da floresta.

Hoje, venho falar de mais uma dessas lindas viagens feitas na floresta do meu estado do Acre, com o intuito claro de homenagear uma pessoa querida.
Laura Rachid, uma amiga jornalista maravilhosa de 24 anos que realizou sua primeira experiência nas aldeias indígenas do Acre. Visitou os povos Huni Kuin do Alto Tarauacá, Rio Jordão e Rio Breu, passou pelo povo Apolimas-Arara para chegar à aldeia Ashaninka do Rio Amônia, dormiu em aldeia Ashaninka do Rio Breu e conheceu os Kuntanawa do Rio Tejo. Tudo isso em minha companhia por 52 dias, na recente viagem que tive o privilégio de realizar.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

EXERCITANDO A ARTE DE VIVER: Ensinamento Ashaninka...

Ou, como uso o conhecimento do Povo Ashaninka como uma de minhas filosofias de vida…
Por: Jairo Lima

“(...) Nossa cabeça é como o mundo e o mundo é como nossa cabeça. A testa é o pensar. O pensar é a calma (1), a ação, a adrenalina, o susto (2) e a reflexão (3). Os Ashaninka sempre agiram para manter esses três em equilíbrio” - Wewyto Ashaninka*

Parece que o céu se diluiu totalmente em lágrimas que lavaram e abençoaram o Juruá. Miríades de cupins voadores, que o povo daqui costuma dizer que é uma ‘formiga’, invadiram o céu à tardinha e se aglomeraram enlouquecidamente em torno de qualquer facho de luz, como se estivessem hipnotizados. Assim foi o fim de semana que oficialmente abriu nosso inverno, e que, se nos balizarmos por esta pequena amostra, certamente teremos meses muito ‘molhados’.

Não sei definir como foi a semana que passou, ao contrário do que faço comumente, pois, ao sentir os nervos à flor da pele e a mente sobrecarregada de preocupações, me dei conta de que precisava ‘retirar-me’ desse plano, camuflando-me de maneira despercebida, como se o ‘mundo’ passasse por mim inadvertido de minha presença e eu, também, despercebido, não daria conta da passagem deste.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

TEMPOS CONFUSOS E INSENSÍVEIS...

A crescente repressão que a arte vem sofrendo no Brasil é realmente uma questão complicada... mas você já ouviu falar do Genocídio Indígena?

Por: Raial Orotu Puri

Realmente vivemos tempos estranhos nessa terra que batizaram de Brasil... As notícias, movimentos, mobilizações e fogueiras cotidianas da internet de fato têm deixado explícito que, parece que quanto mais avançamos no tempo em termos históricos, mais as pessoas parecem ser invadidas por um certo quê de ethos medieval. Um dos campos que mais tem despertado este espírito é o das artes, com um conjunto de situações estranhas em que repentinamente exposições, quadros e performances são julgados por uma multidão de críticos de arte saídos do nada.

Bem, sobre esse assunto, eu gostaria de dizer que não tenho necessariamente uma opinião muito completa a manifestar. Antes de qualquer coisa, porque eu não sou crítica de arte, nem a consumo em profusão o suficiente para me arrogar a isto. Claro, não estou dizendo que só quem tenha alguma formação ou qualquer coisa do tipo possa omitir opiniões sobre o que é ou não arte. É só que eu penso que nesses casos deveria valer aquela regra de ouro de que o fato de eu não gostar de um determinado tipo de arte não me concede legitimidade para simplesmente decretar que aquilo de que não gosto não é arte.

Afinal de contas, existe uma diferença bastante considerável entre eu não gostar de algo, e acreditar que o meu ‘não gosto’ me dá algum direito quando a dar um veredito sumário acerca da impossibilidade de existência daquilo de que eu não gosto, não é mesmo?! Do mesmo modo que existe uma diferença enorme entre considerar uma arte ruim e associá-la à apologia a um crime dos mais graves, tal como é a associação que tem sido feita à pedofilia. (Cite-se sobre isso o caso de um quadro que era uma denúncia e que foi tratado como apologético...)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O COMEÇO DE MINHA HISTÓRIA: Do berço de ouro ao paraíso perdido

Por: Txai Antônio Macêdo
Primeiras memórias: meu pai...
Procuro reconstituir a memória e a história de um grande infante, porém determinado, e  por sua vez traído pelo destino inóspito de um “paraíso perdido”.

Meu pai senhor Raimudo Batista de Macêdo, por ironia do destino aos seus nove anos de idade saiu de Belém de onde vivia em glória junto com meu avô Miguel Arcanjo de Macêdo, minha avó Luíza Guedes de Macêdo, meu tio José Batista de Macêdo (J.Macêdo), suas irmãs Noêmia Cunha de Macêdo, Edite Batista de Macêdo, Josefa Batista de Macêdo dentre outros possíveis irmãos.

Nascido em 27 de setembro de 1909, por volta de 1918, com aproximadamente 09 (nove) anos de idade foi autorizado por meus avos acompanhar sua madrinha numa viagem aventureira ao Aquiri, atualmente Acre. Localidade que mais tarde passou a ser chamado território do Acre.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

SAGRADO DE BOTECO e outras reflexões sobre as esquisitices da semana...


Por: Jairo Lima

Nesta semana confusa, onde uma forte chuva indicando a chegada de nosso ‘inverno’ amazônico trouxe destruição e prejuízos ao Seringal Empresa*, aqui pelas bandas do Juruá as águas ainda não caem com tanta frequência, mas o vento fresco e a sensação de ‘abafado’ é o sinal que vem muita água em breve.

Não posso dizer, nem reclamar que o mês octo** chegou de mansinho, em passos tediosos. Ao contrário, entre os afazeres da labuta diária e ‘papos de índio’ bem interessantes, não pude deixar de registrar em meus alfarrábios mentais algumas situações que, se não carecem de maior atenção através de um papo mais profundo, também não poderia deixar passar ao largo de minha pena. Destas situações cito uma bem interessante.

Vamos lá...

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

NADA IMPEDIRÁ: Algumas reflexões febris sobre conformismo e determinação.


Por: Raial Orotu Puri

Depois de alguns dias de silêncio após um texto suicida, de um sem número de crises por conta de tentar - com parcelas iguais de sucesso e falta dele - escrever a minha tese de doutorado para qualificação antes do final do ano, e antes que meu orientador me mande um bilhete ameaçador acompanhado de antraz, eis que resolvi dar uma pequena pausa para escrever uma reflexão para a semana (neste caso, também antes que eu receba merecidamente uma carta bomba do meu amigo Jairo).

Resolvi começar do zero outra vez, apesar de ter um texto já bem avançado e em fase de fechamento... Acho que como na semana passada não consegui chegar à conclusão, penso que não cabe insistir naquele assunto por hora. Talvez algum dia volte a ele.

Penso ser importante ressaltar um detalhe nada pequeno a respeito do texto presente: dado que meu notebook velho de guerra já está há dias em vias de cruzar o cabo da Boa Esperança, e, infelizmente, nem duas visitas à manutenção foram suficientes para afastá-lo do vale da sombra da morte, este texto está sendo escrito naquela que é praticamente a única ferramenta que está mais ou menos funcionando em toda a estrutura sem que seja necessário reiniciar a cada 10 minutos: o bloco de notas! (Pois é, agora calculem os efeitos disso quando você já está nervosa por conta da necessidade de escrever um trabalho e imaginem o meu nível de simpatia para com a situação...)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

SAGRADO INDÍGENA: quando a busca pela cura vira um negócio de desavisados...

Por: Jairo Lima

A última semana do mês de setembro já ia dobrando a esquina do calendário, e eu ainda não tinha ouvido as cigarras que sempre fazem seu triste concerto nesta época do ano. Por onde andam as cigarras? Pude notar que não fui o único a sentir sua ausência, pois observei manifestações de outras pessoas sobre isso, nas redes sociais.

Um estranho cansaço tomou conta de mim nesta semana e junto com ele a melancolia acenava-me matreira, mas dela fugi, dedicando minha atenção e pensamentos a outras paragens mais positivas, longe de sua vista e influência.

Entre as labutas e pelejas diárias do meu indigenismo de cada dia me deparo com as mais diversas (e em alguns casos bizarras) situações, que me testam os limites constantemente.
Entre estas atividades costumo atender a visitantes que vêm de várias partes do mundo em busca de vivências nas comunidades, sendo estas, quase em sua totalidade, voltadas ao xamanismo. São atendimentos diretos e, em alguns casos, intervenções indiretas em situações que necessitam de uma atenção mais institucional para resolver alguma situação (muitas vezes desagradáveis), durante estas visitas.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ARTESANATO INDÍGENA: Ciclo da vida e da harmonia com a natureza...

Panela de barro, Povo Nukini
Por: Jairo Lima

Nesse dominicus* em que minha pena tecnológica traça as linhas dessa crônica e um resfriado me aflige a paciência, observo que as redes sociais estão pegando fogo, ‘acendidas’ por alguma ‘polêmica da semana’ que surrupiou os ânimos e os neurônios de muitos, penso na semana que passou, em que o espírito do grande pajé  Sapaim Kamayurá voou em direção às estrelas e onde, uma série de pequenos dramas e percepções se interligaram como que traçados em uma teia por uma aranha fantástica, tal qual o ser divino e sobrenatural que ensinou os traços das pinturas do Povo Ashaninka.

No meio de tudo isso comecei a dar publicidade de um projeto que venho desenvolvendo, e que tem tudo pra dar errado, morrer na praia, como costumam dizer. Trata-se de divulgar e fomentar a produção e valorização de uma prática que, pelo menos pelas bandas do Aquiry precisa ser mais difundida, sob o risco de se tornar um conhecimento ‘perdido’ no decorrer dos anos que virão: produção de arte e artesanato a partir de matéria-prima natural, utilizando técnicas tradicional (pelo menos em grande parte) em seu feitio.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SETEMBRO: É amarelo. E é vermelho cor de sangue. E translúcido como a sua indiferença...



Por: Raial Orotu Puri

Pois é, estamos em setembro... Se de 2017 ou de 2016 – fase II, não sei dizer... Mas, seja de que ano for, é setembro, e passar por setembro, no Brasil de hoje, certamente é para os fortes... E o é também por ser um mês com uma relativa quantidade de datas consideradas importantes para o movimento indígena mundial, algumas delas comemorativas, outras nem tanto assim, e algumas, nem de longe...

Penso que é um mês um tanto bipolar: Setembro marca o início da primavera neste lado do hemisfério, e, em geral, existe certa associação entre essa estação e a renovação da esperança e da vida, e, no entanto, é o “Setembro Amarelo”, o mês da conscientização e prevenção do Suicídio...

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA ÀS MARGENS DO RIO TARAUACÁ…

Por: Jairo Lima

O sol estava a pino. Já passava do meio dia quando ele finalmente conseguiu acertar tudo direitinho com o barqueiro que aceitou levá-lo, na subida do rio Tarauacá. Fazia muito calor naquela tarde de setembro, e conseguir um barco foi o menor dos problemas naquele dia.

- Pra onde você quer ir mesmo? - Era a pergunta mais frequente que ouvia pela cidade, onde quer que parasse para resolver alguma coisa antes de sua viagem. Talvez a estranheza se desse pelo fato de aparentar ser muito jovem. Talvez por ser extremamente branco e aparentar fragilidade. Talvez por parecer uma pessoa estranha mesmo, com cabelos longos e brincos: “Mais um maluco atrás do que fazer…” - Foi o comentário venenoso ouvido de uma mesa ao lado, quando certo dia almoçava com um indígena que o acompanharia, sem se dar conta que estava falando um pouco alto, e, certamente, com um ‘estilo’ de fala (o tal ‘sotaque’ conhecido no interior como ‘sotato’).

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DOS POVOS IN-SEM AOS COLETIVOS DEVERIAM SER.


Por: Domingos Bueno

Um dia desses uma pessoa me perguntou se eu gostava de ser antropólogo e músico. Disse que sim, que tinha grande admiração e gratidão pelos assim chamados índios principalmente pelas soluções geniais que ao longo de sua existência tem adotado para lidar com seus vizinhos, com a natureza, com as doenças e com os não-índios e que, eu que não sou índio, também não pretendo sê-lo.

Digo isso porque não gosto muito de negócio de brancos versus índios. Brancos quem, cara-pálida? Os europeus do leste ou do oeste? os negros? os japoneses? Eu, moi, particularmente sou, honrosamente, por um lado descendente de italianos do norte e de outro de brasileiros frutos da mistura de índios, negros, portugueses e, salvo engano, de até de holandeses dos guararapes.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

DIREITOS AUTORAIS COLETIVOS E INDIVIDUAIS: O que isso tem a ver com a cultura indígena?

Por: Jairo Lima

Na semana que passou, enquanto apreciava o sabor marcante do matxu* e admirava as belas peças de artes indígenas, trazidas do Festival Shanenawa, da Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, um pedido de esclarecimento sobre procedimentos de registro de canções Huni Kuin me alertaram para uma situação que vem ocorrendo bastante, e que, certamente trará problemas para este povo, no futuro. O interessante é que não se pode dizer ser uma situação exclusiva deste povo, pois já vi situações semelhantes ocorrendo, ainda que em menor grau, nos demais.

Trata-se da questão de registro das músicas tradicionais, cantadas por txana** e das canções de autoria dos diversos ‘cancioneiros indígenas’ dentro e fora do Brasil.
Com o aumento de jovens indígenas que, com o violão embaixo do braço, e munidos das chamadas ‘medicinas indígenas’ excursionam por esse mundão de carência espiritual um novo mercado vem crescendo bastante: o de registro, em CD e demais mídias, de canções indígenas.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

IDENTIDADE INDÍGENA NÃO É FANTASIA

Por: Raial Orotu Puri

Este mês começou para mim com uma cena um tanto quanto pitoresca, que gostaria de utilizar de base reflexiva para este texto. Bem, outro dia, uma conhecida me interpelou para perguntar se eu tinha alguma roupa, enfeite de cabeça para emprestar ao filho dela, que iria realizar uma apresentação na escola. Perguntou-me em especial se eu não teria um cocar tipo o que ela vira na cabeça de um dos txai Huni Kuin que ela vira em minha companhia no dia anterior. Ela explicou-me que havia procurado em lojas de fantasia, mas lá só tinha para crianças pequenas, e, portanto, não caberiam no filho, já que é um adolescente.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

ENCONTRO DE MULHERES INDÍGENAS NO ACRE

A resistência indígena se expande com o empoderamento da energia feminina indígena!

Por: Dedê Maia

Esse encontro tão especial traz a relembração histórica do movimento dessa Força Feminina Indígena que tive o privilégio de conhecer, e acompanhar de perto, desde seu protagonismo no cotidiano de suas aldeias, carregando seus paneiros pesados de macaxeira e banana, fazendo comida, batendo algodão, tecendo suas redes... Nossa! É muita força e energia em ação!

Traz ainda relembrações das primeiras reuniões dentro das aldeias, década de 80, quando as mulheres, restringiam-se em participar e ouvir, sentadinhas a certa distância, na roda, onde só os txais tinham voz, e decidiam sobre os assuntos em discussão. Educação, saúde, alternativas econômicas, eram os assuntos que faziam parte de todas as pautas das reuniões. E alternativas econômicas eram preocupações que se destacavam, pois, muitos desses povos, e comunidades indígenas, dependiam até então do trabalho da extração da seringa. Com a queda do valor da borracha no mercado, ficaram sem saber o que fazer para oferecer como moeda de troca. E a mulherada sentadinha no seu canto, escutando tudo...!!! Pensando, talvez, como colocar também sua força, sua energia, seus saberes à disposição da luta dos parentes, dos seus parceiros, por uma vida mais digna. Concretamente pensando como ajudar a comprar o sal, o combustível, a munição para as caçadas, sabão, etc. Coisas que já faziam parte de suas necessidades básicas.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

SAGRADO INDÍGENA: Reflexões e ‘papos de índio’ sobre o uso de folha de coca nas aldeias do Aquiry...

E uma notinha sobre um novo tipo de tráfico do sagrado...
Por: Jairo Lima

E o verão segue inclemente aqui pelas bandas do Juruá, nos mostrando que brincar com o meio ambiente, aumentando a temperatura global, não é uma boa ideia.

Na semana que passou, enquanto lia as mensagens finais, fechando o esperado dia de Frig* fiquei horrorizado. Expressei publicamente este horror, ao deparar-me com uma postagem de um centro que se diz espírita negociando na maior cara dura a venda de ayahuasca e kambô. Achei isso o fim da picada. Não que eu fosse assim tão ‘pollyana’ em achar que este circuito ‘ayahuasqueiro’ fosse algo tão sagrado que as pessoas respeitassem, senão no mesmo nível que os chineses com os túmulos de seus imperadores, mas, ao menos, num nível de decoro e respeito.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

MEU AVÔ, MEU PAI E EU: Sobre despedidas, reencontros e uma fotografia que não falta mais…

Por: Raial Orotu Puri

No começo deste mês recebi a notícia de que meu avô José Baia faleceu. Mineiro, com uma idade imprecisamente estabelecida em ‘mais de 100’, ele foi declarado morto pela segunda vez em sua vida. A princípio, eu havia pensando em escrever um outro texto para esta semana, mas acontece que no mesmo mês em que está instituído ‘o dia dos pais’, o meu pai perdeu o pai pela segunda vez (terceira, se for incluir na conta o pai adotivo), e eu perdi esse avô que eu não tive durante mais da metade da vida...


É uma perda estranha. E é uma falta estranha. E sinto que não poderia terminar este mês sem falar dele, para que meu silêncio não se acrescente à ausência agora renovada e tornada definitiva. E é sobre isto que me proponho a escrever agora. Sobre o avô que eu não tive, e já adulta passei a ter, e agora se foi... sobre o pai que faltou a uma criança, e o marido que falou a uma esposa...  sobre a falta de alguém importante, sobre o retorno de alguém querido e ao mesmo tempo desconhecido, e sobre o fata de que a sensação de agora perde-lo de novo é de tristeza, mas é, de certa forma, também de consolo. E, além disso, também sobre o quanto essa ausência se fez presente na minha existência e busca de mim...

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

COISANAWA: Cuidado. Nem todos que usam cocar por aí são índios...

Cocar Bororo
Por: Jairo Lima

Realmente o Acre não é para os desavisados. Principalmente o Acre indígena.
Nesta semana veio a público uma matéria envolvendo a prisão de um indígena, na cidade de Feijó. Prisão esta que desencadeou manifestações de todos os tipos: das sensatas aos mais estapafúrdias possíveis. É o assunto do momento no palco virtual das emoções, onde todos tem sempre uma opinião, geralmente desprovida de mais conteúdo do que “eu acho que”.

Durante a semana, enquanto voava sopapos de todos os lados, como crianças brincando de ‘guerra’, jogando bolotas de lama enquanto escondem-se atrás da cerca, um amigo, a quem prezo muito questionou-me porque ainda não manifestei minha opinião sobre o caso todo. Bem… acontece que não posso ainda expressar minha opinião sobre isso, pois, por questões de ética profissional, não poderei me manifestar até o término das apurações - para quem não sabe, o indigenismo, além de um caminho escolhido há muito tempo, também é minha ocupação profissional. Na verdade, até fico feliz desta restrição, pois, tenho como princípio esperar a comida esfriar um pouco antes de comê-la, a fim de que não passe mal depois.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

NADA DE NOVO NO FRONT: Notas sobre feminismos brancos em missão salvacionista

Por: Raial Orotu Puri

Nesses últimos dias, como não raro acontecer, um assunto tem rodado e se repetido nas conversas e debates que travei, e em algumas notícias que chamaram minha atenção nos últimos dias.

Acredito que pode ser um texto difícil de ser lido por algumas pessoas, mas penso que para mim é indispensável escrevê-lo. Como dizem, a falta de posicionamento, às vezes, é a pior forma de posicionamento.

Nesse sentido, sinto a necessidade de tecer algumas considerações sobre determinadas militâncias que acabam perpassando a nossa existência, que acaba sempre sendo necessariamente plural em termos de vivências e experiências.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

ARTE E ARTESANATO INDÍGENA: Muito além da simples beleza estética...

Máscara Huni Kuin - Foto: Jairo Lima
Por: Jairo Lima


Não escrevi nenhum texto semana passada. Não foi por preguiça, por excesso de trabalho ou por desapontamento ‘cármico’. Nada disso. O que impediu a pena de traçar minhas percepções semanais foram outros compromissos bastantes interessantes:  revisão final do livro “Viagem Pelos Rios do Interior”, da amiga Dedê Maia e; continuidade da organização do meu acervo particular.

Estas duas semanas também foram marcadas por uma série de conversas com visitantes, que retornavam de alguns dos muitos festivais indígenas, neste ciclo de seis meses de festividades do Juruá Indígena. Todos estes visitantes buscavam saber mais sobre os povos indígenas da região e, em alguns casos, buscavam também informações de como adquirir artesanatos e artes indígenas.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

SOBRE MUITAS COISAS…E O MARCO TEMPORAL

Por: Raial Orotu Puri


Tendo retornado há poucos dias de uma visita a uma terra indígena, esta até então desconhecida minha, sinto necessidade de escrever um pouco sobre a experiência, que embora reúna sempre algumas sensações e impressões recorrentes tende a ser também carregada de singularidade e novidade. Quero falar aqui tanto do vivido no contexto da estadia, como daquilo que ouvi no retorno, e que me parece refletir em alguma medida uma percepção que venho construindo acerca do que tenho visto nesses tempos em que ‘conheço’ o Acre.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

PAPO COM REPASTO: Sobre o padrinho tarado, o kambo, os yura e os cursos de xamanismo...

Por: Jairo Lima

Batendo um papo com uns amigos, fechando a semana de visitas que recebi, após um bom repasto de domingo, regado a moqueca de peixe, acompanhado por um delicioso suco de cupuaçu, a conversa direcionou-se para questões espirituais (ou do sagrado), o que não poderia ser diferente já que estes costumam vir ao Acre anualmente em busca de experiências esotéricas e ‘xamânicas’.

Conversávamos sobre as pirações que andam rondando e movendo o ‘mercado’ xamânico, bem como as notícias de algumas bizarrices que andaram ocorrendo durante as viagens dos ‘pajecas’, pseudo-xamãs e ‘padrinhos’ pelos EUA. Rimos muito com três histórias em particular: a de um padrinho do daime, bem conhecido no Sudeste brasileiro, que andou ‘pulando a cerca’ quando esteve nos EUA e foi flagrado dando uns pegas numa irmã da igreja, durante um hinário; a de um pajeca que fumou tanta erva que esqueceu de dar conta dos rituais e, por fim; a de um ‘xamã’ que informava a algumas mulheres (só as bonitas, e nunca informava nada aos homens) que, como parte do ritual teriam que ter relações sexuais com ele. Claro que falamos, também, das pessoas sérias que andam divulgando e espalhando luz pelos quatro cantos do mundo, realizando rituais e trabalhos de cura tanto espiritual quanto material.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O YONI EGG E O FIM DO PATRIARCADO: A sagrada mistureba ataca novamente

Por: Raial Orotu Puri

Dia desses eu estava me dedicando a uma tarefa inglória: visitar perfis e páginas de internet atrás de situações de desrespeito/ crimes contra o patrimônio indígena. Faço isso vez ou outra. Não por que ache a tarefa interessante. Muito pelo contrário, aliás. É triste, decepcionante e revoltante, mas é necessário na parte que me cabe nesse latifúndio.


Além de ter encontrado uma porção de casos bem sérios de apropriação cultural e falta de vergonha na cara made in raion, encontrei também algumas coisas que me fizeram duvidar enormemente da seriedade e da sanidade de algumas pessoas – isso dito tanto daquelas que ofertam determinados artigos quanto daquelas que os adquirem.

Neste texto, gostaria de falar um pouco disso. E sim, por óbvio que, ao falar disso, entrarei também nas questões de apropriação cultural, ainda que esse não seja exatamente o ponto central daquilo que quero tratar. De qualquer forma, um assunto tende a tocar no outro, porque, é claro, tem sempre a questão da salada Frankenstein que é a relação que muitos brancos têm com o sagrado indígena, mas seja como for, a princípio, quero falar menos de apropriação cultural e mais de ‘alopração’ cultural.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

SOBRE O RAPÉ QUE DÁ BARATO, O SAPO QUE FOI FUMADO E A LISERGIA JORNALÍSTICA…

Autor: Bryan Lewis Saunders
Por: Jairo Lima


Dois assuntos sacudiram as redes (anti)sociais estes dias, pelo menos nas que eu frequento. Não se trata do circo político. O assunto foi sobre o rapé e a ayahuasca, especificamente sobre duas matérias publicadas em jornais de referência que, teoricamente, tem entre seus objetivos a clareza de suas matérias e a certeza do que estão afirmando.
Pois bem.

Assim, dando um tempo do ‘barquinho’ (que prometo voltar em breve), não poderia deixar de dar meu pitaco nestas histórias, melhor, nestas estórias. Estes dois assuntos abrem portas para outras reflexões, que eu mesmo venho martelando no decorrer da jornada iniciada desde a publicação da primeira crônica do blog, no ano de 2016.
Por não me atrever a calar minha ‘pena’ é que também trago minha contribuição, se não para clarear, mas, ao menos, para somar minhas reflexões a alguns colegas que já trataram a respeito do tema, além, é claro, de atiçar mais um pouco a brasa para que ela não se apague.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

APRENDA, MAS ACONTEÇA O QUE ACONTECER, NÃO VIRE BRANCO

Por: Raial Orotu Puri

Esse texto não se destina a ninguém em particular. Talvez a todos, talvez principalmente a mim. Ele também não trata de um assunto em específico, mas de um emaranhado de questões que se erguem numa pilha, e que tem relação com um equilíbrio que me parece cada vez mais um sonho distante de ser mantido... e que, no entanto, ainda é um desejo a ser perseguido.


Ele tem a ver com a tristeza desse eterno momento presente sem futuro, de prenúncios de morte, de alardes de fim de direitos originários (como se alguma vez nesse mundo os indígenas tivessem algum direito além de morrer! Em silêncio. Sem protestos), de adensamento da invisibilidade, de consagração da indiferença, de palavras vazias.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

OS PUYANAWA FIZERAM UMA FESTA, E EU ESTAVA LÁ...

Puwe e Shainay
Por: Jairo Lima

Não sei se é porque estou envelhecendo, ou se é por causa da tensão nacional, ou, ainda, se é por causa da melancolia que toma conta desta parte do Pindorama. O que sinto e percebo é uma loucura geral tomando conta de todos, onde a miríade de postagens, reportagens e afins tomaram um rumo esquizofrênico e sufocante que nos entristece e tenciona o juízo.

No início da semana que passou recebi visitas interessantíssimas: um velho amigo das longínquas areias do deserto egípcio e uma nova amiga, do confuso país, onde um alaranjado presidente sonha com um muro que o separe do resto do ‘mundo americano’. Boa conversa, boa comida e boas lembranças deram o mote para sensações saudosas e perspectivas de futuro mais aprazíveis. Visitas boas, mas que duraram pouco, pois, precisavam seguir viagem. Vieram de longe para prestigiarem uma breve estadia com o ‘Povo do Sapo’, o poderoso povo Puyanawa das margens do rio Môa, na segunda edição de seu Festival da Macaxeira Puyanawa.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

"OS DOIS CAMINHOS”: Alguns pensamentos sobre quadros e fronteiras e algumas notícias de um lindo e memorável encontro.

'Os Dois Caminhos' - Autora: Frida  Kahlo
Por: Raial Orotu Puri

Pessoas que vêm de um mundo pré-internet, pré-face, pré-instagram devem talvez se recordar que antigamente era bem comum que quase todas as casas tivessem certos elementos decorativos bastante recorrentes, independentemente de serem ou não considerados de bom gosto hoje em dia. Os exemplos são muitos: as samambaias, as estatuetas de Buda de costas, os porta-tudo de crochê.

Quero começar esse texto falando de um desses ícones em particular, que certamente assombrou a vida de toda uma geração de crianças, pelo menos na região Sul do Brasil. Em tempo: minha infância se passou entre o Sul e o Centro-Oeste, com que desconheço sobre as infâncias de outras paragens, então me deterei por hora nas referências que eu tenho, o que não impede que alguém que cresceu em outras regiões acabe por se identificar também.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O SAGRADO INDÍGENA E A DIALÉTICA DO PECADO...- Parte II

Autor: Harry Ini Metsa
Imperfeições e o dualismo do espírito humano...

Por: Jairo Lima

E seguimos em mais um percursos de subida nesse rio de reflexões que iniciamos no texto anterior, indo mais adiante, vencendo cada volta deste rio sinuoso e por vezes mutante.

Como citei anteriormente, a pecha indelével da imperfeição original herdada das aventuras no Jardim do Éden, juntamente com as demais transgressões pecaminosas do nosso ser material e espiritual, nos leva impreterivelmente a um estado de constante imperfeição. Este estado se manifesta em nós principalmente pela busca incansável - e por vezes despercebida - em dar sentido a tudo que nos rodeia, como se este sentido espelhasse diretamente sobre nós mesmos, dando-nos por conseguinte a sensação de que nos encaixamos nesse Cosmos disfuncional, desde que, esse processo de significação não seja interrompido. Daí a necessidade dos rituais dogmáticos e doutrinas estabelecidas que nos possibilitem manter esta conexão.