segunda-feira, 26 de junho de 2017

O CÉU DE DIAMANTES: Quando encontramos nossa ‘isla’ numa aldeia indígena...

Foto: Arison Jardim, SECOM-AC
Por: Jairo Lima

“Fiquei deitada olhando para o céu. Estava cheio estrelas, e a todo momento eu via uma estrela cadente…”

Estava no trabalho quando recebi estas palavras enviadas por minha esposa, que está participando da festa de demarcação da Terra Indígena do Povo Ashaninka, na aldeia Apiwtxa*. Palavras que chegaram via ‘zap zap’, uma das facilidades da tecnologia virtual que aproxima - e por vezes separa - as pessoas no nosso mundo globalizado.

Feliz, respondi dizendo que sei muito bem o que é essa sensação e como me vi, bem mais jovem do que sou agora, no mesmo local e olhando para este mesmo céu formoso e mágico há uns quinze anos atrás.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

SOBRE O ÓDIO CEGO QUE ASSASSINA E A VIDA QUE INSISTE EM RESISTIR

Por: Raial Orotu Puri

Eu as vezes fico me perguntando se existiria uma correlação entre as pessoas que assistem alguns tipos de filmes e o modo como eles encaram a realidade que os certa. Por exemplo, pessoas que se interessam muito por filmes de guerra, teriam esse interesse específico para suprir ou situar a violência do mundo no ambiente ficcional? E pensando assim, talvez ser fã de filmes sangrentos hiper-realistas – mas ainda assim irreais – seria só uma outra espécie de escapismo, de tentativa de colocar a brutalidade, a própria ou a dos outros, em uma situação controlada, visto que ela se limita ao tempo e ao ambiente da película e não extrapola para o plano do real (pelo menos em tese, e guardadas as devidas exceções sociopatas-inspiradas, o esquema funciona bem, e os aficionados em violência fictícia permanecem sendo pessoas normais e não necessariamente capazes de atos violentos reais simplesmente porque gostam de vê-los representados no cinema).

Pessoalizando um pouco o tema: eu sempre fui muito interessada na Segunda Guerra Mundial... li uma quantidade considerável de livros e assisti outros tantos filmes sobre o tema. E no meu caso, não tem nada a ver com qualquer tipo de interesse bélico, muito pelo contrário, aliás. Meu foco quase sempre foram as narrativas sobre as vítimas, embora também tenha dedicado alguma atenção sobre a análise psicológica dos algozes. E sou levada a pensar que isso também era uma tentativa minha inconsciente de expulsar do meu cotidiano certos níveis de crueldade cujas dimensões chegam ao insuportável.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

KAMBÔ: Um caso de polícia?

Rã Phyllomedusa bicolor, o kambô - Imagem: divulgação
Por: Jairo Lima

Na semana que passou estive às voltas com um caso bem interessante. Participei da análise de um processo envolvendo denúncias de lideranças indígenas quanto ao uso e propaganda indiscriminada das medicinas tradicionais indígenas, em especial o kambô, estrela entre as medicinas, que, juntamente com a ayahuasca e o rapé, formam a tríade de produtos de origem indígena mais buscados.
Depois de mais de quinze anos o kambô volta ao foco das denúncias e incômodos dos povos indígenas.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

‘FALANDO COM’, ‘FALANDO POR’ ou ‘FALANDO DE’: as nada sensíveis diferenças na comunicação e a invisibilidade de quem deveria ser protagonista

Por: Raial Orotu Puri

Quero começar este texto com uma pequena narrativa sobre um fato que testemunhei tempos atrás. Não pretendo nomear pessoas, e não por algum tipo de receio sobre o que e de quem estou falando. É que minha intenção aqui é destacar não tanto a situação e seus envolvidos em particular, mas o comportamento percebido. Talvez alguns dos que leem reconheçam o evento. E talvez outros tantos reconheçam nesse caso particular um espelho de outros vários. Provavelmente! Afinal de contas, eu ando cada vez mais incerta sobre a existência dessa coisa que chamam ‘fato isolado’.

Pois bem, senta que lá vem história...

segunda-feira, 12 de junho de 2017

SOBRE SENTIMENTOS DISSONANTES...

Autora: Heloisa Paim
Por: Jairo Lima

O frio chegou com força aqui no Juruá. A chuva fria e o vento gelado indicam que teremos alguns dias de gostoso refrigério natural de dezesseis graus que, se para os que habitam o Sudeste e o Sul é uma temperatura não tão fria, para nós aqui do Aquiry (Acre) é com se estivéssemos morando no reino de gelo do GoT*.

A semana que passou me arrastou para pensamentos e sentimentos profundos muito particulares, nada a ver com este escangalho todo que assola os pensamentos e a existência política nacional.

Cheguei ao sábado, dia que costumo escrever minhas crônicas, num estado de espírito que nos dias confusos que vivemos atualmente pode parecer loucura ou alienação. Pode-se, inclusive achar que este estado poderia ser efeito de algum medicamento ou até mesmo sinal de alguma enfermidade.
É um sentimento que, se expressado abertamente no palco dos dramas e arena de egos, conhecido popularmente como Facebook, geraria emotions estranhos, comentários diversos e, com certeza, algum ‘textão’ com uma reprimenda nos comentários, feito por alguém que se acha o guardião de como os outros devem se sentir ou se comportar.  Mas que estado de espírito tão bizarro seria esse?
Respondo: felicidade.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

PARTO NATURAL: Fazer ‘como as índias fazem’ ?

Por: Raial Orotu Puri

Dias atrás vi um post de uma amiga de face compartilhando uma reportagem bastante elogiosa a respeito de uma cena de novela atualmente no ar na TV aberta. Como o comentário me chamou a atenção, resolvi abrir o link para dar uma olhada. Tratava-se do elogio a uma cena considerada inédita na dramaturgia brasileira, na qual um dos personagens auxilia a sua esposa em um trabalho de parto inicialmente difícil, ensinando-lhe a fazer ‘do modo como as índias fazem’. Após a iniciativa, o bebê nasce com facilidade, e o desfecho termina com sorrisos aliviados de todos os presentes.

Cabe comentar que meu interesse pelo texto em questão não foi tanto a descrição da cena em si, nem a defesa do parto natural. De início, o que me chamou a atenção foi ‘ensinar como as índias fazem’.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

FESTIVAIS INDÍGENAS: Momentos de alegria, vivências e ‘outras cositas mas’...

Grupo Kayatibu, Jordão - Foto: Edilene Sales Huni Kuin
Por: Jairo Lima

Iniciamos o mês da deusa Juno, numa semana bem interessante, onde pude ‘desopilar’ de muita coisa que vinha me atormentando. Forcei-me a reeducar minha alienação diária, filtrando bem mais minha leitura dos periódicos políticos e das notícias de rádio (via internet, é claro), a que me impunha religiosamente todas as manhãs, após uma boa e energizante caneca de café sem açúcar. Claro que fiz isso em nome de minha sanidade e do equilíbrio mental necessário para a labuta diária que, para mim, devido sua natureza singular, vai além da questão meramente profissional.

Este mês junino (ou junina, já que é da deusa) é também o período que marca os festivais da ‘nação ayahuasqueira’ pelo Brasil e, claro, principalmente aqui no Acre, berço das igrejas do Santo Daime em suas duas principais doutrinas, bem como das demais comunidades espalhadas nesta terra de encantos.

Os tão aguardados festivais indígenas também iniciam neste período, espalhando-se tal quais raios de sol por toda a nação indígena no Aquiry. Dos Huni Kuin até os Ashaninka, passando pelos Yawanawá e pelos Noke Koi, estas festividades marcam o ciclo comemorativo e místico que cada vez mais tomam conta de nossas florestas, principalmente no Juruá.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

SOBRE ‘ELES’: os ‘outros’ sem rostos nem pátria...

'Raízes" - Frida Kahlo
Por: Raial Orotu Puri

Esse texto é, de certa forma, uma continuação ou desdobramento de meu texto da semana passada, no qual eu discuti questões sobre a [falta de] empatia, envolvimento e reação por parte da população não-indígena dos constantes atentados aos direitos (e à vida) que os povos indígenas vêm sofrendo. Sinto que é necessário aprofundar um pouco mais em alguns pontos que talvez tenham ficado um pouco obscuros, ou que precisam de mais ênfase. É claro que não estou fazendo isso de graça; esta motivação de voltar à discussão se deve a alguns acontecimentos dos quais tomei ciência, bem como de alguns comentários sobre meu texto anterior, e que me fizeram entender a necessidade explicar melhor o meu argumento.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

RAPÉ: Pó com whisky e um pouco de Jurema Preta...

Por: Jairo Lima

Sinceramente, o Brasil perdeu as estribeiras, de maneira escancarada nesta funesta semana que quase não termina. Fotos de corpos ensanguentados na chacina de sem-terra no Pará misturavam-se a cenas grotescas de prédios queimando no Planalto Central, saltando da tela fria do meu computador como partes de um horrendo filme Classe B.

Tentando manter a sanidade e uma certa prudência nas leituras e interações com o mundo ‘exterior’ (para mim, esse mundo é o que acesso através do meu computador), restringe muito o acesso e a interação, no intuito de evitar polêmicas ou discussões inúteis sobre temas que já tenho minha própria opinião formada.

Enquanto dava conta dessa roda viva existencial profissional e pessoal que é a vida da gente, entre as mensagens interessantes que recebi, teve uma do Jornalista Altino Machado que me indicou a leitura de um artigo da revista Piauí, sob o título ‘DE VOLTA AO PÓ - A ressurreição do rapé’ (clique aqui). Texto bizarro, na verdade, mas bem interessante, e que de certa forma, sistematiza muito a sobre do que venho refletindo e escrevendo nestes últimos meses.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

COMO É QUE VOCÊ PODE VER TANTO, MAS NÃO ENXERGA NADA?

Por: Raial Orotu Puri

Há alguns anos atrás, li um conto de Marina Colassanti intitulado “O homem atento”.
Nunca estive a salvo dos contos dessa autora, visto que quase tudo o que ela escreveu me causa algum tipo de sentimento diverso: choro copioso, trauma de trauma irrecuperável, melancolia, amor incondicional. Essa história em particular, no entanto, está no rol daquelas que fazem pensar e estabelecer analogias sobre minha forma de interagir com a vida.  Trata-se do caso de um indivíduo que era – ou acreditava ser – capaz de perceber tudo à sua volta. A sensação de onisciência prossegue até o momento em que ele se dá conta que seu desejo de eterna atenção, mesmo para alguém possuidor uma percepção extraordinária, não é real; mesmo tendo a capacidade de ver uma grande parte das coisas, há sempre algo que passa despercebido. E as vezes ocorre que vejamos tudo, exceto o mais essencial. ´A descoberta do tempo que passara atento, e ainda assim tão distraído, é levemente melancólica, mas é também imbuída do prazer e da surpresa de viver uma emoção no mundo real, e não apenas meramente assistir.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

POLÍTICA INDÍGENA NO ACRE: Reflexões sobre a ‘Carta de Maio'...

Jovens Huni Kuin - Foto: Assis Huni Kuin
Por: Jairo Lima


O mês pluvioso* continua a toada desconstrutivista da índole nacional e da sanidade mental, dos que teimam em acompanhar cada desdobramento desta triste comédia que insiste em não ter um ‘último ato’.

Minha crônica da semana certamente  não será de agrado geral, até porque o foco será político, mais precisamente sobre o que vou chamar aqui ‘política no Acre indígena”, ou seja, um tema bem provinciano mesmo, daqui da terra de Galvez, o que certamente desmotivará alguns leitores. Dou este aviso logo de início para que os que quiserem já ‘pularem fora do barco enquanto está perto do barranco’, abandonando o restante da leitura.

Vamos lá…

sexta-feira, 19 de maio de 2017

ÍNDIO NÃO É GENTE: é passarinho....

Por: Domingos Bueno


"Os brancos pensam que índio é igual passarinho: tá lá no mato vivendo livre, solto... É só disso que precisam..."

Dessa forma uma liderança Kaygang começou sua fala durante um encontro recente em Curitiba, PR, para discutir visibilidade e violência contra indígenas, que revela algo que eu já refletia em torno dessa relação ambígua que estabelecemos com as sociedades tradicionais.

Desde a invasão colonizadora das Américas até hoje, os indígenas ocupam um lugar difuso e liminar  tanto no imaginário popular como nas políticas oficiais. No chamado descobrimento oscilavam entre ingênuos desconhecedores do pecado, vivendo em estado de graça no paraíso Adâmico, até bárbaros selvagens (bárbaros porque etimologicamente eram estrangeiros que falavam uma língua diferente e selvagens porque viviam na selva), que praticavam canibalismo; uma gente sem fé, sem lei e sem rei que dá pra traduzir por herege, sem religião e igualitários, ou seja, que lutavam contra todos os valores e práticas de dominação que as sociedades "civilizadas" (domesticadas) utilizavam.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

CHÚRI, UK’HUA, SANNÁ: sobre os Puri, Museus, a Exposição no MAR e a resistência

Por: Raial Orotu Puri

 
Talvez esta crônica não acrescente nada de muito novo para quem a for ler. E talvez esse seja um péssimo jeito de começar um texto, já avisando de antemão de que ele tende a ser repetitivo... Mas, ocorre que algumas proposições parecem requerer um nível mais intenso de defesa argumentativa, para que se assentem como um elemento concreto, mesmo que, não raro, esse conceito seja absolutamente óbvio, e praticamente inegável.
A existência do meu povo é, por exemplo, uma dessas ideias. Interessante, não? Aliás, digo isso, não apenas tomando os Puri em isolado, mas pensando na resistência indígena em geral, e na negação perene imposta à possibilidade de uma existência indígena contemporânea, seja ela mantida sobre valores culturais considerados como ‘tradicionais’ – a vida em uma aldeia, a utilização de vestimentas e adornos atendendo às mesmas estilísticas de outrora, etc. – ou seja ela passada em um contexto mais aproximado daquela dos padrões ocidentais. E acho que convém repetir isso, até mesmo para ressaltar o quanto é absurdo que ainda existam, e persistam, reflexões e defesas de uma não-existência dos povos originários na atualidade.

É do mesmo modo bastante absurdo constatar o quanto a presença indígena nas cidades e no mundo contemporâneo seja por tantas vezes hostilizado e tratado como uma desconformidade, um incômodo, uma invasão. Sim, eu também já falei disso... Mas é as circunstâncias têm feito de mim um ser repetitivo: Há sem dúvida algo de errado, uma inversão radical dos polos, quando uma cidade, ou um citadino se mostra incomodado com a presença dos povos originários, perceba-se (Quem é que chegou primeiro, não é mesmo?). Assim como há uma contradição que beira o mau-caratismo nas argumentações do tipo ‘não é índio mais/perdeu a cultura’, como se a gente perdesse a cultura porque foi descuidado enquanto caminhava apressado por uma rua, e houvesse derrubado a cultura e continuado a seguir distraidamente o caminho...

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A CULTURA É DINÂMICA E TEM SUAS ‘MODAS’, MAS NÃO É BAGUNÇADA …

Por: Jairo Lima


Tivemos uma semana bem molhada aqui pelo Juruá. Choveu muito, o que contribuiu ainda mais para nosso isolamento físico do resto do Aquiry e, claro, da terra brasilis, já que o acesso terrestre entre a capital do Estado, no Seringal Empresa e a prelazia do Juruá, onde estou, regrediu aos saudosos anos oitenta, quando a rodovia federal, a infame BR 364, nada mais era que um grande varadouro que cortava o Estado de uma ponta da ‘asinha’ a outra. Mas este isolamento tem lá suas vantagens, pois nos mantém relativamente seguros e com acesso à paz característica das cidades interioranas.

Apesar dos ventos turbulentos do Planalto Central,  que teimam em atazanar nossa já atribulada existência profissional, econômica e política, a semana passou relativamente calma. Claro que me refiro ao mundo do “aqui onde estão meus pés”, e não o ‘mundo’ que temos acesso pelas redes de comunicação. Estes, continuavam o cabo-de-guerra e as arengas de sempre, um pouco mais exaltadas que o normal mas, dentro da normalidade caótica de sempre.

Dentro dos afazeres diários, nesse meu indigenismo de cada dia, atendi a uma pesquisadora que veio trocar umas ideias comigo a respeito de sua proposta de pesquisa de mestrado. Na conversa, esta me contou sobre um programa que tinha assistido, sobre um museu onde tinham vários objetos e demais acessórios indígenas. No programa, a curadora do museu explicava como ‘eram’ os índios, e como hoje em dia muitos deles “deixaram a cultura, não usam mais aquelas vestimentas de antes, os objetos, isso é meio triste…”.
Interrompi a narração da colega com a pergunta: “E o que tem de estranho nisso?”

sexta-feira, 12 de maio de 2017

UM CAMINHAR INDIGENISTA..

Tembé - Foto: Site Combate ao Racismo Ambiental
Por: Johny Fernandes Giffoni

Primeiro dia de trabalho, o ano era 2011, tinha 30 anos, havia acabado de assumir o cargo de Defensor Público do Estado do Pará, havia sido lotado na Comarca de Ourilândia do Norte, Sul do Pará, terra habitada pelos Indígenas da Etnia Kayapó e Xikrin.

Quando da minha lotação, não tinha ideia dos desafios e conflitos que iria vivenciar, logo ao chegar à cidade, no primeiro dia de trabalho, ao sair do hotel rumo ao Fórum avistei alguns indígenas na frente do Hospital da Cidade.

Na Universidade de Direito, apreendemos durante dez minutos que as matérias envolvendo indígenas são de competência da Justiça Federal, contudo a primeira impressão que tive em Ourilândia do Norte me trouxe indagações as quais contrariavam aqueles sólidos ensinamentos de dez minutos. Apreendemos também durante toda nossa vida, desde os tempos de escola que os indígenas ao vestirem roupa, falarem Português, utilizarem celulares, deixarem seus “habitats” naturais, bem como abandonarem seus rituais, costumes e tradições, se integrando à “civilização” branca, estariam aculturados não sendo mais indígenas.

Muitas classificações sobre o “tom de pele” foram criadas, não lembro com detalhes, mas em minhas andanças pelo Estado do Pará, ainda ouço algumas delas, tais como Crioulos, caboclo, mameluco, caiçara, mestiço, todas elas dotadas de preconceito e caráter de inferioridade genética, para segregar aqueles indivíduos não pertencentes à elite branca e aristocrática de nosso País, e justificar opressões e supressões de direitos aos povos originários de nosso País.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

DIANTE DO FIM IMINENTE: Será realmente o “fim”?

Huni Kuin - Foto: Ion David
Por: Jairo Lima

Ensaio sobre o fim do mundo: E o que isso tem a ver com minha percepção sobre as luta dos Povos Indígenas...

Passei a semana num mal estar danado. Não sei bem precisar de onde vinha este mal estar, qual seria a sua origem. Claro que as peripécias políticas e as derrapadas governamentais contribuíram, em certo grau, com essa sensação infernal, afinal, para quem trabalha, se identifica ou milita junto a questão indígena não tem como não se indignar com as decisões mequetrefes daqueles que, em tese, deveriam zelar pelas leis e pelos direitos dos povos indígenas.

Mas o mal estar prosseguiu a semana inteira, alternando entre picos de resignação e desalento até sensações de 'fim iminente', ocasionado por tudo o que vem ocorrendo nesse mundo doido que vivemos, onde, dos devaneios do alaranjado presidente americano em sua arenga com o anão norte-coreano, até as arapucas sanguinárias dos jagunços contra os índios nos fazem sentir como se vivêssemos dentro de uma panela de pressão prestes a explodir.

E essa sensação de 'fim do mundo'  tende a se agravar se lermos e dermos atenção a tudo o que postam nas redes sociais; Ou se crermos na miríade de informações, que nos chegam através do rádio do carro; Das manchetes e textos dos meios jornalísticos da televisão e da internet;  Da miríade de blogs e sites de pensadores que, de alguma forma, acreditamos nos identificar;  Dos inúmeros grupos de 'wat zap zap' (que de alguma forma surgem aos montes e alguém tem sempre a infeliz ideia de nos incluir) e que, à cada dia, assumem o papel de verdadeiros anjos tocadores das trombetas do apocalipse, pois se acercam e nos invadem a privacidade com mais facilidade que outras ferramentas de comunicação e informação.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

ATAQUE AO POVO GAMELA: Quem dera o Brasil fosse apenas uma história de violenta ficção

"Mirada" - Autora: Raial Orotu Puri
Por: Raial Orotu Puri


Terminei de ler nesse final de semana o quinto volume do livro de fantasia “Uma canção de Gelo e Fogo”, ou, como mais conhecida no Brasil “As Crônicas do Gelo e do Fogo” o que me conduz ao posto de mais uma dentre os muitos expectantes (im)pacientes pela morosidade de produção do autor em lançar a próxima continuação de um imprevisto rol de livros até a conclusão da história. Esses livros, que eu utilizei como um pequeno alívio prazeroso no meu cotidiano nem sempre tão agradável, concentram algumas verdades, talvez óbvias, mas nem por isso desnecessárias: ao contrário do que acontecem em obras de outros autores célebres da fantasia – como a minha divindade maior, Tolkien – apesar de ser construído em um ambiente onde criaturas fantásticas tais como dragões e mortos-vivos existem e tornam arriscada a vida dos humanos, a verdadeira monstruosidade, barbárie e selvageria retratada na história está posta no lado homo sapiens da força.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

RODA DE CONSELHOS COM OS YAWANAWÁ: objetivo na vida e a busca pelo equilíbrio de viver...

Professor Nani Yawanawá - Foto: Acervo Tashka Yawanawá
Por: Jairo Lima


Nesta semana que passou recebi a visita de lideranças Yawanawá, mais precisamente, do Conselho Yawanawá, composto por homens e mulheres, representantes de boa parte das aldeias da Terra Indígena Rio Gregório.

A pauta da visita seria discutirmos o Plano de Vida Yawanawa, projeto comunitário que estipula uma série de ações para o alcance pleno da autonomia e reforço cultural deste povo. E este assunto foi realmente abordado.

Claro que muitos dos membros deste conselho são velhos conhecidos meus. Assim, não me surpreendi quando, entrelaçada à questão do projeto de vida deste povo, a conversa girou em torno de minha pessoa, da maneira mais tradicional da conhecida “roda de conversa” no terreiro da aldeia, onde assuntos diversos são tratados e que, quando estes referem-se a alguém particular, assumem uma conotação mais íntima e aborda-se o assunto sempre de maneira séria, mas amorosa, onde a mensagem seja dada sem que isso venha a gerar conflitos ou má interpretações. Outra característica interessante é que, nestas falas o uso da terceira pessoa ao se referir ao aconselhado é uma ferramenta usualmente utilizada.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

UMA TRAVESSIA PELOS TERREIROS DO POVO JAPÓ: Ashaninka do Rio Amônia

Por: Dedê Maia

Por instantes fiquei matutando como descrever essa travessia pelos terreiros do povo do Japó, famílias Ashaninka do rio Amônia, Município de Marechal Thaumaturgo, casa do meu amigo Benki Piyãnko, local onde está sendo construído o Centro de Cura Yorenka Tasore (saberes da criação), coordenado pelo nosso anfitrião, e que tem como base os seus conhecimentos ancestrais no uso das medicinas tradicionais e tratamento na “recuperação das energias que as doenças e muitos remédios químicos consomem dos seres humanos” (Benki Piyãnko)
“... As plantas... as nossas medicinas têm espírito e são esses espíritos que vão nos curar... Dar-nos a energia necessária para estabelecer a cura do corpo e do espírito... Mas é preciso acreditar... E concentrar nos curadores que estão em nossas ervas medicinais... Nossa Ayhauaska... Nosso kamarãpy... Essa é a nossa ciência... Nossa intenção também é trabalhar junto com a ciência dos brancos... Com médicos... Fisioterapeutas... Terapeutas, que estão dispostos a realizar esse intercâmbio com a gente para atender não só nossa comunidade Ashaninka, como também a comunidade do entorno que vêm buscar tratamento com a gente... Esse é o nosso projeto... Construir no Centro de Cura Yorenka Tasore o nosso hospital para atender a quem nos procurar...” (parte de uma palestra onde anotei pontos importantes da fala de Benki Piyãnko).

quarta-feira, 26 de abril de 2017

SOBRE A NECESSIDADE DE SEMPRE REPRESENTAR OS SOBREVIVENTES. E SOBREVIVER A ISSO.

Por: Raial Orotu Puri


Faz já algum tempo que tenho uma preocupação recorrente acerca da necessidade, que cada vez se coloca de forma mais essencial, dos indígenas estarem também participando do mundo dos brancos. E isso, não necessariamente para confraternizar – quase nunca para isso – mas para tentar apreender certas ferramentas, para estar atento a ameaças e para encontrar escuta, para reivindicar direitos, para fazer-se ouvir e ser sentinela. Não que isso seja necessariamente agradável – quase nunca é – ou a melhor maneira de empregar seu tempo, quando a opção pode ser uma vida numa aldeia, e a eternidade das coisas que não mudam, das notícias que chegam tarde, do tempo que escoa a conta gotas.

Sempre tive a impressão de que, numa aldeia distante o suficiente da ‘civilização’, quando o mundo acabar a notícia vai chegar uns 03 meses depois do acontecido. Se chegar. E isso é ótimo!! O grande problema é que, cada vez mais, essa ‘distância suficiente’ diminui, e as tentativas de aniquilação do mundo indígena também se tornam cada vez mais próximas e cotidianas. E, ao que tudo nos indica, não é estrategicamente viável deixar de vigiar as ameaças sempre crescentes, e os ataques cada vez mais descarados que o mundo do raion vem perpetrando contra os povos originários. Por essas e outras coisas, a necessidade de que indígenas estejam ‘representando’ seu povo em meio não-indígena acaba sendo uma constante, para o bem ou para o mal.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

MUNDO DOS SONHOS: sagrado indígena e a busca para "sair da caverna”...

Por: Jairo Lima


A luz da lua penetrou na pequena casa onde eu estava. De minha rede eu via sua fria luz pela porta e brechas na parede de paxiúba. A luz iluminava, também, duas outras redes estendidas, onde seus ocupantes, a uma primeira olhada, pareciam estátuas de fino mármore, reluzindo placidamente a luz que parcialmente os atingia. Não sem um pouco de esforço eu conseguia visualizá-los, pois, o fato de tentar manter os olhos abertos despendia uma grande concentração de minha parte. Duas pequenas figuras se destacavam na semi-luz do ambiente, sentados firmes diante uma pequena lamparina a querosene que teimava em rivalizar com a luz fria que penetrava o ambiente.

Uma voz que parecia estar em todo canto, sem realmente ser percebida em sua origem, entoava um cântico cadenciado, simétrico e firme, como se estivesse dando ordens a algo intangível. Tudo parecia tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto.
Vez ou outra percebia outros sons que penetravam abruptamente o ambiente. Estes vinham de pássaros e outros entes noturnos que se cercavam do ambiente. Eu podia jurar que conseguia até ouvir o borbulhar lento, produzido pela água corrente do pequeno rio que passava logo adiante da casa.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

DIREITO, O APRENDIZ, ELAS/ES, AS/OS MESTRAS/ES: À procura de uma escuta qualificada

Jovem Yawanawá - Foto: Sergio Vale
Por: Claudia Aguirre


Eu, a aprendiz, elas/es, as/os mestras/es

No último dia 3 de abril, tive a honra de representar a Defensoria Pública do Estado do Acre no primeiro dia das atividades do Seminário “Subsídios para a criação das categorias ‘escola indígena’ e ‘professor indígena’, e outros marcos para a gestão intercultural da EEI no Acre”, promovido pela Secretaria de Educação do Estado do Acre e a Comissão Pró-Índio do Acre, com o apoio da UNICEF.

Na ocasião, as falas das professoras e professores indígenas presentes espelhavam visões de mundo muito profundas, vivas, demonstrando uma autoconsciência cultural e uma disposição ao diálogo de dar inveja a muito cara-pálida. Dentre as falas, uma me pareceu muito paradigmática da lição que eu, a aprendiz - a defensora pública tinha saído para dar uma volta - tinha que aprender ali.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

SOBRE MINHA AVÓ, EU MESMA E O ORGULHO DE SER PURI NESTE 19 DE ABRIL

Anita Malfatti
Por: Raial Orotu Puri


Ser Puri
É mais ou menos isso:
Verde que busque o daquela pitaya.
Adaptada e feliz em Ser.
Ou quase...
E quando penso em ser Puri
Quanto estou entre outros de mim
Sinto pulsar a nossa valentia
Penso em meu pai...
Em sua história de sobrinho de alfaiate e filho daquela índia...
Minha avó!
Eu mesma!
Nos perdemos de nós
E aí está a nossa covardia
Em se deixar perder
...essa coragem que tudo o que se sabe folha tem.
A mim não ofende ser chamada covarde!
Porque não me ofende ser.
Quem sabe de sua coragem sabe de seus limites
Que possamos estar juntos para nos saber melhor e mais fortes do que pensávamos.
Somos!
(Poema de Tuschahi Puri)



Às vezes algumas coincidências chegam a ser irritantemente boas. Uma dessas é o fato de ‘meu dia de escrever’, a quarta-feira, caia justamente no dia 19 de abril. (Outra é que hoje é aniversário da grande divindade perspectivista da antropologia brasileira, Eduardo Viveiros de Castro – a quem desejo meus sinceros parabéns, a propósito). Vai daí, que escrever nesse dia, estando sempre dizendo e redizendo o quanto esta data de calendário diz muito pouco, e representa muito pouco, para quem tem de lutar pra ser todo dia, e todo dia precisa provar que ainda existe, é realmente uma ironia impagável, dessas que merecem que a gente escreva um texto a respeito. Pois bem, eis o texto.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

SOBRE POSTAGENS, APONTAMENTOS E MENTE ABERTA...


Por: Jairo Lima


“É preciso ter a mente aberta, mas não a ponto de que o cérebro caia”...

Esta frase martelava em minha mente enquanto pensava nas notícias recebidas via mensagens ou lidas despreocupadamente na tal da timeline de minha vida social virtual.

Ia lendo coisas, vendo toda a movimentação para o evento “Acampamento Terra Livre”, a ser realizado este mês que, segundo alguns mais antenados no esoterismo das coisas, vem de Aprus, o nome etrusco de Vénus, deusa do amor e da paixão.
Apertando a setinha de rolamento de página vou vendo manifestações de apoio a algum movimento feminista; Manifestações políticas raivosas ou sarcásticas sobre a atual conjuntura do circo político que estamos vivendo; Vejo algumas divulgações de retiros e rituais sagrados, onde as “doações” variam de acordo com a “chiqueza” do espaço a ser utilizado. Um pouco enfadado vejo algumas manifestações de apoio ao retorno da ditadura (!)... vindas de pessoas que não tinham nem nascido, quando este funesto e ridículo sistema político deixou de existir. Não posso deixar de pensar que, certamente, o máximo de leitura que estas criaturas devem ter são de postagens de jornalecos que mais parecem tabloides.