sexta-feira, 18 de agosto de 2017

SOBRE MUITAS COISAS…E O MARCO TEMPORAL

Por: Raial Orotu Puri


Tendo retornado há poucos dias de uma visita a uma terra indígena, esta até então desconhecida minha, sinto necessidade de escrever um pouco sobre a experiência, que embora reúna sempre algumas sensações e impressões recorrentes tende a ser também carregada de singularidade e novidade. Quero falar aqui tanto do vivido no contexto da estadia, como daquilo que ouvi no retorno, e que me parece refletir em alguma medida uma percepção que venho construindo acerca do que tenho visto nesses tempos em que ‘conheço’ o Acre.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

PAPO COM REPASTO: Sobre o padrinho tarado, o kambo, os yura e os cursos de xamanismo...

Por: Jairo Lima

Batendo um papo com uns amigos, fechando a semana de visitas que recebi, após um bom repasto de domingo, regado a moqueca de peixe, acompanhado por um delicioso suco de cupuaçu, a conversa direcionou-se para questões espirituais (ou do sagrado), o que não poderia ser diferente já que estes costumam vir ao Acre anualmente em busca de experiências esotéricas e ‘xamânicas’.

Conversávamos sobre as pirações que andam rondando e movendo o ‘mercado’ xamânico, bem como as notícias de algumas bizarrices que andaram ocorrendo durante as viagens dos ‘pajecas’, pseudo-xamãs e ‘padrinhos’ pelos EUA. Rimos muito com três histórias em particular: a de um padrinho do daime, bem conhecido no Sudeste brasileiro, que andou ‘pulando a cerca’ quando esteve nos EUA e foi flagrado dando uns pegas numa irmã da igreja, durante um hinário; a de um pajeca que fumou tanta erva que esqueceu de dar conta dos rituais e, por fim; a de um ‘xamã’ que informava a algumas mulheres (só as bonitas, e nunca informava nada aos homens) que, como parte do ritual teriam que ter relações sexuais com ele. Claro que falamos, também, das pessoas sérias que andam divulgando e espalhando luz pelos quatro cantos do mundo, realizando rituais e trabalhos de cura tanto espiritual quanto material.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O YONI EGG E O FIM DO PATRIARCADO: A sagrada mistureba ataca novamente

Por: Raial Orotu Puri

Dia desses eu estava me dedicando a uma tarefa inglória: visitar perfis e páginas de internet atrás de situações de desrespeito/ crimes contra o patrimônio indígena. Faço isso vez ou outra. Não por que ache a tarefa interessante. Muito pelo contrário, aliás. É triste, decepcionante e revoltante, mas é necessário na parte que me cabe nesse latifúndio.


Além de ter encontrado uma porção de casos bem sérios de apropriação cultural e falta de vergonha na cara made in raion, encontrei também algumas coisas que me fizeram duvidar enormemente da seriedade e da sanidade de algumas pessoas – isso dito tanto daquelas que ofertam determinados artigos quanto daquelas que os adquirem.

Neste texto, gostaria de falar um pouco disso. E sim, por óbvio que, ao falar disso, entrarei também nas questões de apropriação cultural, ainda que esse não seja exatamente o ponto central daquilo que quero tratar. De qualquer forma, um assunto tende a tocar no outro, porque, é claro, tem sempre a questão da salada Frankenstein que é a relação que muitos brancos têm com o sagrado indígena, mas seja como for, a princípio, quero falar menos de apropriação cultural e mais de ‘alopração’ cultural.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

SOBRE O RAPÉ QUE DÁ BARATO, O SAPO QUE FOI FUMADO E A LISERGIA JORNALÍSTICA…

Autor: Bryan Lewis Saunders
Por: Jairo Lima


Dois assuntos sacudiram as redes (anti)sociais estes dias, pelo menos nas que eu frequento. Não se trata do circo político. O assunto foi sobre o rapé e a ayahuasca, especificamente sobre duas matérias publicadas em jornais de referência que, teoricamente, tem entre seus objetivos a clareza de suas matérias e a certeza do que estão afirmando.
Pois bem.

Assim, dando um tempo do ‘barquinho’ (que prometo voltar em breve), não poderia deixar de dar meu pitaco nestas histórias, melhor, nestas estórias. Estes dois assuntos abrem portas para outras reflexões, que eu mesmo venho martelando no decorrer da jornada iniciada desde a publicação da primeira crônica do blog, no ano de 2016.
Por não me atrever a calar minha ‘pena’ é que também trago minha contribuição, se não para clarear, mas, ao menos, para somar minhas reflexões a alguns colegas que já trataram a respeito do tema, além, é claro, de atiçar mais um pouco a brasa para que ela não se apague.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

APRENDA, MAS ACONTEÇA O QUE ACONTECER, NÃO VIRE BRANCO

Por: Raial Orotu Puri

Esse texto não se destina a ninguém em particular. Talvez a todos, talvez principalmente a mim. Ele também não trata de um assunto em específico, mas de um emaranhado de questões que se erguem numa pilha, e que tem relação com um equilíbrio que me parece cada vez mais um sonho distante de ser mantido... e que, no entanto, ainda é um desejo a ser perseguido.


Ele tem a ver com a tristeza desse eterno momento presente sem futuro, de prenúncios de morte, de alardes de fim de direitos originários (como se alguma vez nesse mundo os indígenas tivessem algum direito além de morrer! Em silêncio. Sem protestos), de adensamento da invisibilidade, de consagração da indiferença, de palavras vazias.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

OS PUYANAWA FIZERAM UMA FESTA, E EU ESTAVA LÁ...

Puwe e Shainay
Por: Jairo Lima

Não sei se é porque estou envelhecendo, ou se é por causa da tensão nacional, ou, ainda, se é por causa da melancolia que toma conta desta parte do Pindorama. O que sinto e percebo é uma loucura geral tomando conta de todos, onde a miríade de postagens, reportagens e afins tomaram um rumo esquizofrênico e sufocante que nos entristece e tenciona o juízo.

No início da semana que passou recebi visitas interessantíssimas: um velho amigo das longínquas areias do deserto egípcio e uma nova amiga, do confuso país, onde um alaranjado presidente sonha com um muro que o separe do resto do ‘mundo americano’. Boa conversa, boa comida e boas lembranças deram o mote para sensações saudosas e perspectivas de futuro mais aprazíveis. Visitas boas, mas que duraram pouco, pois, precisavam seguir viagem. Vieram de longe para prestigiarem uma breve estadia com o ‘Povo do Sapo’, o poderoso povo Puyanawa das margens do rio Môa, na segunda edição de seu Festival da Macaxeira Puyanawa.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

"OS DOIS CAMINHOS”: Alguns pensamentos sobre quadros e fronteiras e algumas notícias de um lindo e memorável encontro.

'Os Dois Caminhos' - Autora: Frida  Kahlo
Por: Raial Orotu Puri

Pessoas que vêm de um mundo pré-internet, pré-face, pré-instagram devem talvez se recordar que antigamente era bem comum que quase todas as casas tivessem certos elementos decorativos bastante recorrentes, independentemente de serem ou não considerados de bom gosto hoje em dia. Os exemplos são muitos: as samambaias, as estatuetas de Buda de costas, os porta-tudo de crochê.

Quero começar esse texto falando de um desses ícones em particular, que certamente assombrou a vida de toda uma geração de crianças, pelo menos na região Sul do Brasil. Em tempo: minha infância se passou entre o Sul e o Centro-Oeste, com que desconheço sobre as infâncias de outras paragens, então me deterei por hora nas referências que eu tenho, o que não impede que alguém que cresceu em outras regiões acabe por se identificar também.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O SAGRADO INDÍGENA E A DIALÉTICA DO PECADO...- Parte II

Autor: Harry Ini Metsa
Imperfeições e o dualismo do espírito humano...

Por: Jairo Lima

E seguimos em mais um percursos de subida nesse rio de reflexões que iniciamos no texto anterior, indo mais adiante, vencendo cada volta deste rio sinuoso e por vezes mutante.

Como citei anteriormente, a pecha indelével da imperfeição original herdada das aventuras no Jardim do Éden, juntamente com as demais transgressões pecaminosas do nosso ser material e espiritual, nos leva impreterivelmente a um estado de constante imperfeição. Este estado se manifesta em nós principalmente pela busca incansável - e por vezes despercebida - em dar sentido a tudo que nos rodeia, como se este sentido espelhasse diretamente sobre nós mesmos, dando-nos por conseguinte a sensação de que nos encaixamos nesse Cosmos disfuncional, desde que, esse processo de significação não seja interrompido. Daí a necessidade dos rituais dogmáticos e doutrinas estabelecidas que nos possibilitem manter esta conexão.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O MAL-ENTENDIDO NEOXAMÂNICO PODE SER GIGANTESCO*

Pelo Dr. Jacques Mabit

Traduzido do francês para o português por José Pimenta**

“Xamanismo amazônico” / “estudantes ocidentais”. A justaposição destes dois termos mergulharia sem dúvida os nossos antepassados na perplexidade, mas se tornaram familiares para nós. No entanto, de acordo com um especialista, a nossa confiança tranquila esconde um equívoco perigoso. Não se atravessa ingenuamente os milênios que separam a modernidade da magia pré-histórica! O alarme é ainda mais justificado por vir de um terapeuta que não temeu pela sua reputação, saindo do caminho seguro para ir ao encontro apaixonado de “curandeiros” da selva. Amigo de Jeremy Narby ou Jan Kounen, ele vê o turismo xamânico com um olhar preocupado. Há mais de dez anos, o Dr. Jacques Mabit organiza estágios para ocidentais com xamãs da Amazônia peruana. No início, sua ação se concentrava nos viciados em drogas, para os quais a “visita “mágica” à sua interioridade. paradoxalmente, os livraria da droga. Mas, aos poucos, o “neoxamanismo” virou moda e o centro Takiwasi (O pássaro que canta) aceitou abrir suas portas a um público cada vez maior. Hoje, Jacques Mabit faz um balanço e seu discurso é mais que ambivalente. Segundo ele, muita ingenuidade, uma impaciência infantil, hábitos aconchegantes e uma longa ruptura com a natureza e o corpo selvagens e, acima de tudo, uma ignorância estúpida e generalizada da dimensão simbólica verdadeiramente vivida, associada com a hipertrofia do ego, fazem do encontro entre ocidentais e xamãs, mais frequentemente do que poderíamos pensar, um mercado de ilusões. E como o objeto do mal-entendido não é nada mais que o despertar da consciência, a ilusão pode rapidamente se transformar num labirinto assustador. A seguir, partes de um artigo do Dr. Jacques Mabit publicados no verão de 2005 na revista Synodies.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

UM ESTADO DE ‘MAIS VIDA’: A realidade de um grupo Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul

Autor: Petterson Silva
Por: Raial Orotu Puri


Graças à benesse do meu irmão Roberto, eu recentemente passei a ter acesso ao fantástico mundo do Netflix, e, embora não esteja em condições de aproveitar muito esse privilégio classe média, devido às minhas limitações de tempo e necessidades de dar conta de uma infinidade de demandas, vez ou outra, permito uma pequena parada para assistir algum filme ou série. Foi assim que, dia desses, me interessei por assistir “The Oa", uma série de oito capítulos que conta a história de uma moça que, tendo estado desaparecida por sete anos, reaparece envolta em vários mistérios, dentre eles, o fato de ter recuperado a visão.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O SAGRADO INDÍGENA E A DIALÉTICA DO PECADO...- Parte I

Planetarius Land, 1983
Começando a viagem’...


Por: Jairo Lima


"Vanitas vanitatum et omnia Vanitas"*

Acordei hoje pensando nessa frase que, em sua essência, nos esbofeteia a cada momento, quando paramos para refletir seu significado.
Não percebi de início o porque desta citação em especial, oriunda das catacumbas sagradas do Velho Testamento, ter alguma importância neste meu amanhecer asmático de julho, quando a falta de umidade me lembra da insignificância existencial humana diante do clima amazônico.

No decorrer do dia, entretanto, enquanto me dedicava ao prazeroso trabalho de finalização do livro da Dedê Maia, meus pensamentos divagavam sobre algumas impressões que andei tendo no decorrer da semana. Impressões estas suscitadas por um excelente texto** indicado pelo amigo José Pimenta, antropólogo e professor na UNB.
Resolvi, então, iniciar hoje uma ‘viagem’ um pouco mais longa, estendendo esta crônica. Não no sentido de criar teoria ou explicações para o que quero refletir, mas, sim, no sentido de expandir e mergulhar mais fundo no entendimento desta contínua busca pela compreensão e entendimento do sagrado.

Assim, convido aos que quiserem embarcar comigo para que me acompanhem nessa jornada e, para os que não tiverem interesse… nos vemos na volta.
Então… vamos lá...

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SOBRE REALIDADES QUE ESCAPAM ÀS PALAVRAS...

Ou sobre palavras que não podem comportar a vida...
Por: Raial Orotu Puri


Para entender esse texto, gostaria de propor uma pequena analogia: se você tem em suas mãos apenas um filete de palha, você só consegue riscar o chão. Agora se você junta uma quantidade considerável de filetes, e o ata em um feixe, e depois junta outros mais em número adequado, e então faz uma vassoura, e com ela você pode varrer um terreiro. Pois bem, o processo dessa reflexão que aqui proponho é parecido com este, visto que com ele, tenho intenção de fazer uma pequena faxina na minha cabeça, limpando-a de certa quantidade de ideias que, no fim, podem ser atadas em um conjunto, visto que estão ligadas a uma mesma questão problemática para mim, qual seja, a impossibilidade de decodificação de certas coisas da vida em palavras, sobretudo em textos, mais ainda em textos acadêmicos.

Quero avisar de antemão que, dado que o tema é a dificuldade de expressão, não tenho muitas pretensões de que o texto chegue a ser um portento da escrita. E peço, também de antemão, desculpas sinceras a quem se engasgar com essa poeira toda e não entender nada.  

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A POLITICALHA TROPICALIENTE: quando os ‘bicho de ruma’ começam a chegar às aldeias…

Obra de Joseane Biscegli
Por: Jairo Lima

E vem aí 2018…

Eu sei que o ansiado mês de dezembro ainda está relativamente longe, e com ele
aquela sensação de que, com a mudança de calendário anual, tudo será diferente. Infelizmente, como estamos descobrindo a cada dia, 2016 começou e até hoje parece não ter terminado.

E mesmo tendo a sensação de continuidade do ano anterior, ao que parece, pulamos direto para as portas do seguinte. E por que acho isso? Simples. Basta ver a sanha de futuros candidatos e de políticos posando para fotos nas comunidades indígenas aqui pelo Aquiry. Todos seguindo o protocolo de sempre: cocar na cabeça, pote de caiçuma nas mãos, cara de feliz, urucum no rosto, postado ao lado de um txai fazendo o sinal de ‘legal’, com o polegar…

Claro que as câmeras não mostram um outro lado destes candidatos: a carinha de nojo na hora de beber um gole (bem pequeno) de caiçuma, o desconforto por estar suado e com insetos rondando, os assessores fazendo piadinhas nos ouvidos uns dos outros e rindo de alguma coisa que ninguém sabe o que é, os celulares tirando fotos sem que seus donos tenham sequer pedido autorização, etc.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

SOBRE O SEGREDO E O SAGRADO... E A MISTUREBA

Por: Raial Orotu Puri


“Esse, esse é o nosso último tesouro, o único que ainda não levaram. Esse não podemos deixar de jeito nenhum levar embora!!”
Essa frase preocupada e incisiva foi dita numa reunião que tive dia desses, aonde conversei com um parente que apresentava o resultado ainda parcial de uma pesquisa que ele vem fazendo há alguns anos, sobre uma parte específica da tradição de seu povo. Foi uma conversa delicada e muito interessante, a qual, obviamente, não irei aqui detalhar. Ajudei naquilo que podia: do ponto de vista de meu ‘ethos’ com formação em direito, dei indicações específicas sobre caminhos jurídicos para proteção daquela pesquisa e daquele conhecimento, e do ponto de vista pessoal, dividi com ele a minha preocupação acerca da necessidade de proteger os segredos dos olhos ‘alheios’.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O CÉU DE DIAMANTES: Quando encontramos nossa ‘isla’ numa aldeia indígena...

Foto: Arison Jardim, SECOM-AC
Por: Jairo Lima

“Fiquei deitada olhando para o céu. Estava cheio estrelas, e a todo momento eu via uma estrela cadente…”

Estava no trabalho quando recebi estas palavras enviadas por minha esposa, que está participando da festa de demarcação da Terra Indígena do Povo Ashaninka, na aldeia Apiwtxa*. Palavras que chegaram via ‘zap zap’, uma das facilidades da tecnologia virtual que aproxima - e por vezes separa - as pessoas no nosso mundo globalizado.

Feliz, respondi dizendo que sei muito bem o que é essa sensação e como me vi, bem mais jovem do que sou agora, no mesmo local e olhando para este mesmo céu formoso e mágico há uns quinze anos atrás.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

SOBRE O ÓDIO CEGO QUE ASSASSINA E A VIDA QUE INSISTE EM RESISTIR

Por: Raial Orotu Puri

Eu as vezes fico me perguntando se existiria uma correlação entre as pessoas que assistem alguns tipos de filmes e o modo como eles encaram a realidade que os certa. Por exemplo, pessoas que se interessam muito por filmes de guerra, teriam esse interesse específico para suprir ou situar a violência do mundo no ambiente ficcional? E pensando assim, talvez ser fã de filmes sangrentos hiper-realistas – mas ainda assim irreais – seria só uma outra espécie de escapismo, de tentativa de colocar a brutalidade, a própria ou a dos outros, em uma situação controlada, visto que ela se limita ao tempo e ao ambiente da película e não extrapola para o plano do real (pelo menos em tese, e guardadas as devidas exceções sociopatas-inspiradas, o esquema funciona bem, e os aficionados em violência fictícia permanecem sendo pessoas normais e não necessariamente capazes de atos violentos reais simplesmente porque gostam de vê-los representados no cinema).

Pessoalizando um pouco o tema: eu sempre fui muito interessada na Segunda Guerra Mundial... li uma quantidade considerável de livros e assisti outros tantos filmes sobre o tema. E no meu caso, não tem nada a ver com qualquer tipo de interesse bélico, muito pelo contrário, aliás. Meu foco quase sempre foram as narrativas sobre as vítimas, embora também tenha dedicado alguma atenção sobre a análise psicológica dos algozes. E sou levada a pensar que isso também era uma tentativa minha inconsciente de expulsar do meu cotidiano certos níveis de crueldade cujas dimensões chegam ao insuportável.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

KAMBÔ: Um caso de polícia?

Rã Phyllomedusa bicolor, o kambô - Imagem: divulgação
Por: Jairo Lima

Na semana que passou estive às voltas com um caso bem interessante. Participei da análise de um processo envolvendo denúncias de lideranças indígenas quanto ao uso e propaganda indiscriminada das medicinas tradicionais indígenas, em especial o kambô, estrela entre as medicinas, que, juntamente com a ayahuasca e o rapé, formam a tríade de produtos de origem indígena mais buscados.
Depois de mais de quinze anos o kambô volta ao foco das denúncias e incômodos dos povos indígenas.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

‘FALANDO COM’, ‘FALANDO POR’ ou ‘FALANDO DE’: as nada sensíveis diferenças na comunicação e a invisibilidade de quem deveria ser protagonista

Por: Raial Orotu Puri

Quero começar este texto com uma pequena narrativa sobre um fato que testemunhei tempos atrás. Não pretendo nomear pessoas, e não por algum tipo de receio sobre o que e de quem estou falando. É que minha intenção aqui é destacar não tanto a situação e seus envolvidos em particular, mas o comportamento percebido. Talvez alguns dos que leem reconheçam o evento. E talvez outros tantos reconheçam nesse caso particular um espelho de outros vários. Provavelmente! Afinal de contas, eu ando cada vez mais incerta sobre a existência dessa coisa que chamam ‘fato isolado’.

Pois bem, senta que lá vem história...

segunda-feira, 12 de junho de 2017

SOBRE SENTIMENTOS DISSONANTES...

Autora: Heloisa Paim
Por: Jairo Lima

O frio chegou com força aqui no Juruá. A chuva fria e o vento gelado indicam que teremos alguns dias de gostoso refrigério natural de dezesseis graus que, se para os que habitam o Sudeste e o Sul é uma temperatura não tão fria, para nós aqui do Aquiry (Acre) é com se estivéssemos morando no reino de gelo do GoT*.

A semana que passou me arrastou para pensamentos e sentimentos profundos muito particulares, nada a ver com este escangalho todo que assola os pensamentos e a existência política nacional.

Cheguei ao sábado, dia que costumo escrever minhas crônicas, num estado de espírito que nos dias confusos que vivemos atualmente pode parecer loucura ou alienação. Pode-se, inclusive achar que este estado poderia ser efeito de algum medicamento ou até mesmo sinal de alguma enfermidade.
É um sentimento que, se expressado abertamente no palco dos dramas e arena de egos, conhecido popularmente como Facebook, geraria emotions estranhos, comentários diversos e, com certeza, algum ‘textão’ com uma reprimenda nos comentários, feito por alguém que se acha o guardião de como os outros devem se sentir ou se comportar.  Mas que estado de espírito tão bizarro seria esse?
Respondo: felicidade.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

PARTO NATURAL: Fazer ‘como as índias fazem’ ?

Por: Raial Orotu Puri

Dias atrás vi um post de uma amiga de face compartilhando uma reportagem bastante elogiosa a respeito de uma cena de novela atualmente no ar na TV aberta. Como o comentário me chamou a atenção, resolvi abrir o link para dar uma olhada. Tratava-se do elogio a uma cena considerada inédita na dramaturgia brasileira, na qual um dos personagens auxilia a sua esposa em um trabalho de parto inicialmente difícil, ensinando-lhe a fazer ‘do modo como as índias fazem’. Após a iniciativa, o bebê nasce com facilidade, e o desfecho termina com sorrisos aliviados de todos os presentes.

Cabe comentar que meu interesse pelo texto em questão não foi tanto a descrição da cena em si, nem a defesa do parto natural. De início, o que me chamou a atenção foi ‘ensinar como as índias fazem’.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

FESTIVAIS INDÍGENAS: Momentos de alegria, vivências e ‘outras cositas mas’...

Grupo Kayatibu, Jordão - Foto: Edilene Sales Huni Kuin
Por: Jairo Lima

Iniciamos o mês da deusa Juno, numa semana bem interessante, onde pude ‘desopilar’ de muita coisa que vinha me atormentando. Forcei-me a reeducar minha alienação diária, filtrando bem mais minha leitura dos periódicos políticos e das notícias de rádio (via internet, é claro), a que me impunha religiosamente todas as manhãs, após uma boa e energizante caneca de café sem açúcar. Claro que fiz isso em nome de minha sanidade e do equilíbrio mental necessário para a labuta diária que, para mim, devido sua natureza singular, vai além da questão meramente profissional.

Este mês junino (ou junina, já que é da deusa) é também o período que marca os festivais da ‘nação ayahuasqueira’ pelo Brasil e, claro, principalmente aqui no Acre, berço das igrejas do Santo Daime em suas duas principais doutrinas, bem como das demais comunidades espalhadas nesta terra de encantos.

Os tão aguardados festivais indígenas também iniciam neste período, espalhando-se tal quais raios de sol por toda a nação indígena no Aquiry. Dos Huni Kuin até os Ashaninka, passando pelos Yawanawá e pelos Noke Koi, estas festividades marcam o ciclo comemorativo e místico que cada vez mais tomam conta de nossas florestas, principalmente no Juruá.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

SOBRE ‘ELES’: os ‘outros’ sem rostos nem pátria...

'Raízes" - Frida Kahlo
Por: Raial Orotu Puri

Esse texto é, de certa forma, uma continuação ou desdobramento de meu texto da semana passada, no qual eu discuti questões sobre a [falta de] empatia, envolvimento e reação por parte da população não-indígena dos constantes atentados aos direitos (e à vida) que os povos indígenas vêm sofrendo. Sinto que é necessário aprofundar um pouco mais em alguns pontos que talvez tenham ficado um pouco obscuros, ou que precisam de mais ênfase. É claro que não estou fazendo isso de graça; esta motivação de voltar à discussão se deve a alguns acontecimentos dos quais tomei ciência, bem como de alguns comentários sobre meu texto anterior, e que me fizeram entender a necessidade explicar melhor o meu argumento.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

RAPÉ: Pó com whisky e um pouco de Jurema Preta...

Por: Jairo Lima

Sinceramente, o Brasil perdeu as estribeiras, de maneira escancarada nesta funesta semana que quase não termina. Fotos de corpos ensanguentados na chacina de sem-terra no Pará misturavam-se a cenas grotescas de prédios queimando no Planalto Central, saltando da tela fria do meu computador como partes de um horrendo filme Classe B.

Tentando manter a sanidade e uma certa prudência nas leituras e interações com o mundo ‘exterior’ (para mim, esse mundo é o que acesso através do meu computador), restringe muito o acesso e a interação, no intuito de evitar polêmicas ou discussões inúteis sobre temas que já tenho minha própria opinião formada.

Enquanto dava conta dessa roda viva existencial profissional e pessoal que é a vida da gente, entre as mensagens interessantes que recebi, teve uma do Jornalista Altino Machado que me indicou a leitura de um artigo da revista Piauí, sob o título ‘DE VOLTA AO PÓ - A ressurreição do rapé’ (clique aqui). Texto bizarro, na verdade, mas bem interessante, e que de certa forma, sistematiza muito a sobre do que venho refletindo e escrevendo nestes últimos meses.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

COMO É QUE VOCÊ PODE VER TANTO, MAS NÃO ENXERGA NADA?

Por: Raial Orotu Puri

Há alguns anos atrás, li um conto de Marina Colassanti intitulado “O homem atento”.
Nunca estive a salvo dos contos dessa autora, visto que quase tudo o que ela escreveu me causa algum tipo de sentimento diverso: choro copioso, trauma de trauma irrecuperável, melancolia, amor incondicional. Essa história em particular, no entanto, está no rol daquelas que fazem pensar e estabelecer analogias sobre minha forma de interagir com a vida.  Trata-se do caso de um indivíduo que era – ou acreditava ser – capaz de perceber tudo à sua volta. A sensação de onisciência prossegue até o momento em que ele se dá conta que seu desejo de eterna atenção, mesmo para alguém possuidor uma percepção extraordinária, não é real; mesmo tendo a capacidade de ver uma grande parte das coisas, há sempre algo que passa despercebido. E as vezes ocorre que vejamos tudo, exceto o mais essencial. ´A descoberta do tempo que passara atento, e ainda assim tão distraído, é levemente melancólica, mas é também imbuída do prazer e da surpresa de viver uma emoção no mundo real, e não apenas meramente assistir.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

POLÍTICA INDÍGENA NO ACRE: Reflexões sobre a ‘Carta de Maio'...

Jovens Huni Kuin - Foto: Assis Huni Kuin
Por: Jairo Lima


O mês pluvioso* continua a toada desconstrutivista da índole nacional e da sanidade mental, dos que teimam em acompanhar cada desdobramento desta triste comédia que insiste em não ter um ‘último ato’.

Minha crônica da semana certamente  não será de agrado geral, até porque o foco será político, mais precisamente sobre o que vou chamar aqui ‘política no Acre indígena”, ou seja, um tema bem provinciano mesmo, daqui da terra de Galvez, o que certamente desmotivará alguns leitores. Dou este aviso logo de início para que os que quiserem já ‘pularem fora do barco enquanto está perto do barranco’, abandonando o restante da leitura.

Vamos lá…

sexta-feira, 19 de maio de 2017

ÍNDIO NÃO É GENTE: é passarinho....

Por: Domingos Bueno


"Os brancos pensam que índio é igual passarinho: tá lá no mato vivendo livre, solto... É só disso que precisam..."

Dessa forma uma liderança Kaygang começou sua fala durante um encontro recente em Curitiba, PR, para discutir visibilidade e violência contra indígenas, que revela algo que eu já refletia em torno dessa relação ambígua que estabelecemos com as sociedades tradicionais.

Desde a invasão colonizadora das Américas até hoje, os indígenas ocupam um lugar difuso e liminar  tanto no imaginário popular como nas políticas oficiais. No chamado descobrimento oscilavam entre ingênuos desconhecedores do pecado, vivendo em estado de graça no paraíso Adâmico, até bárbaros selvagens (bárbaros porque etimologicamente eram estrangeiros que falavam uma língua diferente e selvagens porque viviam na selva), que praticavam canibalismo; uma gente sem fé, sem lei e sem rei que dá pra traduzir por herege, sem religião e igualitários, ou seja, que lutavam contra todos os valores e práticas de dominação que as sociedades "civilizadas" (domesticadas) utilizavam.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

CHÚRI, UK’HUA, SANNÁ: sobre os Puri, Museus, a Exposição no MAR e a resistência

Por: Raial Orotu Puri

 
Talvez esta crônica não acrescente nada de muito novo para quem a for ler. E talvez esse seja um péssimo jeito de começar um texto, já avisando de antemão de que ele tende a ser repetitivo... Mas, ocorre que algumas proposições parecem requerer um nível mais intenso de defesa argumentativa, para que se assentem como um elemento concreto, mesmo que, não raro, esse conceito seja absolutamente óbvio, e praticamente inegável.
A existência do meu povo é, por exemplo, uma dessas ideias. Interessante, não? Aliás, digo isso, não apenas tomando os Puri em isolado, mas pensando na resistência indígena em geral, e na negação perene imposta à possibilidade de uma existência indígena contemporânea, seja ela mantida sobre valores culturais considerados como ‘tradicionais’ – a vida em uma aldeia, a utilização de vestimentas e adornos atendendo às mesmas estilísticas de outrora, etc. – ou seja ela passada em um contexto mais aproximado daquela dos padrões ocidentais. E acho que convém repetir isso, até mesmo para ressaltar o quanto é absurdo que ainda existam, e persistam, reflexões e defesas de uma não-existência dos povos originários na atualidade.

É do mesmo modo bastante absurdo constatar o quanto a presença indígena nas cidades e no mundo contemporâneo seja por tantas vezes hostilizado e tratado como uma desconformidade, um incômodo, uma invasão. Sim, eu também já falei disso... Mas é as circunstâncias têm feito de mim um ser repetitivo: Há sem dúvida algo de errado, uma inversão radical dos polos, quando uma cidade, ou um citadino se mostra incomodado com a presença dos povos originários, perceba-se (Quem é que chegou primeiro, não é mesmo?). Assim como há uma contradição que beira o mau-caratismo nas argumentações do tipo ‘não é índio mais/perdeu a cultura’, como se a gente perdesse a cultura porque foi descuidado enquanto caminhava apressado por uma rua, e houvesse derrubado a cultura e continuado a seguir distraidamente o caminho...

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A CULTURA É DINÂMICA E TEM SUAS ‘MODAS’, MAS NÃO É BAGUNÇADA …

Por: Jairo Lima


Tivemos uma semana bem molhada aqui pelo Juruá. Choveu muito, o que contribuiu ainda mais para nosso isolamento físico do resto do Aquiry e, claro, da terra brasilis, já que o acesso terrestre entre a capital do Estado, no Seringal Empresa e a prelazia do Juruá, onde estou, regrediu aos saudosos anos oitenta, quando a rodovia federal, a infame BR 364, nada mais era que um grande varadouro que cortava o Estado de uma ponta da ‘asinha’ a outra. Mas este isolamento tem lá suas vantagens, pois nos mantém relativamente seguros e com acesso à paz característica das cidades interioranas.

Apesar dos ventos turbulentos do Planalto Central,  que teimam em atazanar nossa já atribulada existência profissional, econômica e política, a semana passou relativamente calma. Claro que me refiro ao mundo do “aqui onde estão meus pés”, e não o ‘mundo’ que temos acesso pelas redes de comunicação. Estes, continuavam o cabo-de-guerra e as arengas de sempre, um pouco mais exaltadas que o normal mas, dentro da normalidade caótica de sempre.

Dentro dos afazeres diários, nesse meu indigenismo de cada dia, atendi a uma pesquisadora que veio trocar umas ideias comigo a respeito de sua proposta de pesquisa de mestrado. Na conversa, esta me contou sobre um programa que tinha assistido, sobre um museu onde tinham vários objetos e demais acessórios indígenas. No programa, a curadora do museu explicava como ‘eram’ os índios, e como hoje em dia muitos deles “deixaram a cultura, não usam mais aquelas vestimentas de antes, os objetos, isso é meio triste…”.
Interrompi a narração da colega com a pergunta: “E o que tem de estranho nisso?”